Perguntas e Respostas Sobre Qual O Dia da Crucificação de Cristo


(Pergunta incômoda que até um menino de 6 ou 7 anos, da escola elementar, pode fazer a sr. padre e sr. pastor: "Ué, se Jesus passou 3 dias e também 3 noites no seio da terra, como ele prometeu, então como pode Ele ter morrido na sexta-feira?! Entre a tardinha da sexta-feira e o amanhecer do domingo, só há 2 noites (a da sexta-feira para o sábado, e a do sábado para o domingo) e nem mais um pedacinho de nenhuma terceira noite nenhuma!")




Amado irmão, Pr. AAAA:

Folgo em receber sua carta, é com alegria que vou procurar respondê-la:



> PERGUNTA 1. Que dia da semana era comemorada a páscoa?

No ano 32 a páscoa comemorada por Jesus com seus discípulos caiu numa QUARTA-FEIRA, e a páscoa comemorada pelas multidões caiu numa QUINTA-FEIRA. Expliquemos:

A páscoa era realizada no dia 14 de Nissan. Mas os judeus estavam divididos quanto ao calendário:

- A grande maioria seguia os Saduceus, que governavam o Templo e impunham as datas usando um calendário lunar, no qual a páscoa podia cair às vezes em um, às vezes em outro dia da semana (no ano 32 caiu numa quinta-feira).

- Uma minoria seguia os Fariseus usando um velho calendário sacerdotal, solar, no qual a páscoa sempre caia numa quarta-feira.

Cristo deve ter seguido o calendário solar pois, quando para ele era 14 de Nissan (pois que ele comeu a ceia pascal com seus discípulos, ver João 18:28), o calendário oficial religioso só marcava 13 de Nissan (pois que, para os Saduceus governando o Templo e a vida religiosa do país, a páscoa oficial seria no dia seguinte). Isto explica como Cristo comeu a páscoa (João 18:28) mas, na noite seguinte, os religiosos oficiais ainda iam comer a Páscoa.

Não guardei as referências de todos as anotações quase taquigráficas que juntei sobre este assunto (entre outros) ao longo dos anos, mas o irmão poderá encontrar umas poucas referências em “Pictorial Encyclopedia of the Bible”, 1975, Vol. 4, page 608. Creio que a referência mais importante deve ser “La Date de la Céne”, Mlle. Annie Jaubert, 1957.  A literatura do Qumran também é importante, um importante overview dela é “The Scrolls and Christian Origins”,M. Black, 1961.

Veja esta citação, diz basicamente a mesma coisa:

“No ano 32 segundo nosso calendário, Cristo foi traspassado e verteu todo Seu sangue ao anoitecer de uma QUARTA-FEIRA (nossa). Para os judeus, esta ocasião foi o fim do dia 14 de Nissan, portanto foi a hora da imolação do cordeiro da Páscoa e o início do quinto dia da semana. Este quinto dia da semana foi também considerado um sabath (que significa dia de cessação dos trabalhos), pois, sendo o primeiro dia da festa dos pães asmos, era dia religioso a ser guardado em descanso. Cristo ressuscitou durante a noite do sétimo dia da semana para o domingo. Portanto, como tinha profetizado, Cristo ficou exatamente 3 dias completos e 3 noites completas no seio da terra, com a porta do túmulo fechada, até que ressuscitou e dele saiu.

Por tudo isso, a última ceia do Senhor com seus apóstolos ocorreu numa noite da terça para a quarta-feira, noite que chamaríamos 13 de abril mas que, para Cristo, já era 14 de Nissan e, para outros judeus, era 13 de Nissan.

Notemos que, devido às diferenças entre o ano solar, adotado por alguns, e o ano lunar, adotado por outros, em certos anos havia alguns judeus que começavam a contar o 1o. dia do ano antes dos demais. Isto ocorreu naquele ano. Para Cristo e seus discípulos, aquela terça-feira era 14 de Nissan, enquanto para os demais era somente 13 de Nissan. Por isso, Cristo guardou a Páscoa um dia antes dos demais.”




> PERGUNTA 2. Qual era o primeiro dia dos pães asmos?

Dia 15 de Nissan (pôr de sol a pôr de sol). Quanto a em que dia da semana ele caia, ver a resposta (1).



> PERGUNTA 3. Quando começava e quando terminava o sábado?

Pôr de sol a pôr de sol.



> PERGUNTA 4. Que dia da semana era o dia da preparação para a páscoa?

Dia 13 de Nissan (pôr de sol a pôr de sol) era o dia da preparação da páscoa. O Cordeiro era imolado “entre os dois anoitecer” e era comido durante a noite que começa o dia 14 de Nissan. Quanto ao dia da semana em que estas coisas caiam, ver resposta (1).



> PERGUNTA 5. A reunião dos sacerdotes e fariseus com Pilatos foi no sábado (Mt 28:62)?

O irmão deve ter querido dizer Mt 27:62. O dia da reunião foi no dia seguinte ao da preparação, portanto, no calendário dos Saduceus, foi 15 de Nissan, o primeiro dia da Festa dos Asmos, um sabath (dia de cessação de trabalhos), mesmo caindo na quinta-feira.



> ou foi na sexta (Mc 15:42)?

O texto não diz “sexta-feira”, não diz nada equivalente ao sexto dia da semana, só diz que o dia da crucificação foi um dia de preparação, isto é o dia imediatamente antes do sabath (dia de cessação de trabalhos). Este sabath foi 15 de Nissan, não necessariamente um sétimo dia da semana (mas sim uma quinta-feira).



> ou teria sido numa quinta feira?

Sim. Já explicado.



> PERGUNTA 6. Cronologia:
> * 1o. dia dos pães asmos Jesus comeu a ceia
> * Nesta mesma noite foi a Getsêmani e foi preso e levado ao Sinédrio
> * De manhã cedinho foi levado até Pilatos (2o. dia dos pães asmos)
> * Pilatos manda Jesus para Herodes
> * Herodes devolve Jesus para Pilatos
> * Pilatos entrega Jesus para os soldados - acredito que toda essa movimentação com Jesus deve ter levado um dia inteiro ou mais.
> * Crucificação - Em João diz que era a parasceve. O que é isso? João 19:14
> * Sepultamento - mesmo dia da crucificação - antes do sábado.João 19:31-42


Creio que a cronologia foi diferente, já a rascunhei há muitos anos atrás, mas não a tenho no computador nem sei onde a coloquei, por gentileza lembre-me antes do fim do ano, OK? Ela é basicamente a cronologia da Bíblia Anotada de C.I. Scofield, só que adaptando-a para a crucificação na quarta-feira.



> Para concluir somente um comentário sobre sua afirmação acerca do único modo de interpretação da Bíblia pelos verdadeiros crentes.  Me considero um verdadeiro crente, porém reconheço que existem muitas passagens bíblicas que não podem ser interpretadas no seu sentido literal, pois neste caso teríamos que furar os olhos e cortar as mãos  de muitos crentes.

Ah, querido irmão, pastor AAAA! De modo algum quis ofender o senhor, amado! Nem a nenhum crente nem pastor semelhante ao senhor, pois os considero verdadeiros crentes e tenho certeza de que estamos do mesmo lado nesta questão. (No máximo pode haver, talvez, pequenos graus de diferença no entendimento ou definição ou uso de alguns termos ...).

Claro, claro, há passagens com sentido poético, há abundante uso de figuras de linguagens, e creio que nós dois concordamos juntos que elas assim devem ser interpretadas. Talvez um exemplo esclareça melhor:

Se o jornal diz que “a educação é o caminho que o Brasil deve trilhar”, todos entendem que “caminho” não é uma rodovia, “trilhar” não é com pés físicos literais! Todos entendem que “caminho” significa ai ação a ser tomada para a salvação do nosso país. Para mim, esta é a interpretação LITERAL, literal-óbvia-indiscutível dentro do seu contexto. Não há outra interpretação possível. Ninguém precisa entender diferentemente.

Semelhantemente, onde Cristo diz “Eu sou o caminho ...”, devemos entender que “caminho” significa ai adesão e fé a serem exercidas para que qualquer pessoa receba salvação pessoal do inferno e adoção pelo Pai. Para mim, esta é a interpretação LITERAL, literal-óbvia-indiscutível dentro do seu contexto. Não há outra possível. Ninguém precisa entender diferentemente.

Interpretação alegórica é o oposto do acima. É dizer “A palavra `Eu` significa a igreja Fulana; `o caminho` é muito radical, devemos interpretar como sendo apenas `um dos caminhos`.”

Com interpretação alegórica, o interpretador faz a Bíblia ensinar qualquer coisa que ele quiser. Com interpretação alegórica, vai-se à Bíblia para torcê-la de modo a dizer o que o homem quer, é Deus que tem que se dobrar ao homem e não este a Deus.

Tenho certeza de que ambos concordamos em querer o primeiro tipo de interpretação e não o segundo.
 




 Hélio de Menezes Silva




Todas as citações bíblicas são da ACF (Almeida Corrigida Fiel, da SBTB). As ACF e ARC (ARC idealmente até 1894, no máximo até a edição IBB-1948, não a SBB-1995) são as únicas Bíblias impressas que o crente deve usar, pois são boas herdeiras da Bíblia da Reforma (Almeida 1681/1753), fielmente traduzida somente da Palavra de Deus infalivelmente preservada (e finalmente impressa, na Reforma, como o Textus Receptus).



(Copie e distribua ampla mas gratuitamente, mantendo o nome do autor e pondo link para esta página de http://solascriptura-tt.org)



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