A História da Aparição de Nossa Senhora Aparecida





Desde muito criança, aprendi a ser devoto ardente da Senhora  Aparecida, padroeira do Brasil...

        Como bons católicos, meus pais enviaram-me, aos seis anos de idade, ao catecismo paroquial na igreja matriz de São Joaquim da Barra (Estado de São Paulo), minha terra natal.

        Lembro-me perfeitamente. Foi no último domingo do mês de maio de 1931. Nossa aula de catecismo precisou terminar mais cedo, antes das três horas, por causa da procissão do encerramento de maio, o mês de Nossa Senhora. As naves do templo reboavam com a celeuma da azáfama enorme. As filhas de Maria davam os retoques finais nos andores. O da Imaculada Conceição estava sendo ornamentado na casa de Dona Sara, a presidente da Pia União das Filhas de Maria. Iríamos vê-lo na hora da procissão sair. Reinava irriquieta curiosidade na expectativa de uma grande e agradável surpresa. A imagem precisava ser mesmo um deslumbramento porque seria coroada ao final da procissão, sob a chuva intensa dos multicoloridos fogos de artifício.

        Rarissimamente nosso vigário, o padre Eugênio, aparecia no catecismo. Nos domingos à tarde, o seu grande compromisso se resumia em, cervejando, jogar baralho no bar do Paulo Trombini, ao lado do cinema local.

        Naquele domingo ele foi. Insofrido, depois de haver explicado que cada país, cada estado, cada cidade tem um santo protetor, contou-nos que o papa declarara Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Elucidou, ainda, que Maria Santíssima é uma só e que as diversas e muitas denominações a ela atribuídas não supõem diversas "nossas senhoras". É uma só! Tendo, porém, se manifestado em Lourdes, é chamada "Nossa Senhora de Lourdes"; tendo aparecido em Fátima é dita "Nossa Senhora de Fátima"; etc. Relatou-nos, também, como apareceu "Nossa Senhora Aparecida" no Rio Paraíba. Explicou que o Rio Paraíba não ficava no Estado desse mesmo nome, porém, sim no Estado de São Paulo. Informou-nos, ainda na sua pressa, que no dia 31 daquele mesmo mês de maio, no Rio de Janeiro, a então Capital da República, haveria uma grande festa, com a presença de todos os bispos do país, para coroar rainha do Brasil a Senhora Aparecida.

        Lembro-me, outrossim, do meu encantamento quando, na procissão, vi o andor, o mais lindo de todos: Todo iluminado, ornamentado de lantejoulas e ladeado de duas bandeiras brasileiras, e a imagem sobre o globo terrestre onde apareciam os contornos do mapa de nossa Pátria.

        No sermão, o padre convidou os fiéis para assistirem à missa do dia 31 em regozijo pelas solenidades a se darem no Rio de Janeiro, oportunidade em que, a propósito, informou, contaria os fatos relacionados com a aparição da miraculosa santa.

        Com efeito, nesse dia, relatou: Certa ocasião, o Governador da Capitania de São Paulo, Conde de Assumar, em viagem para Minas Gerais, pernoitou em Guaratinguetá, no Norte do nosso Estado. Então a Câmara local decidiu oferecer-lhe um banquete com uma grande variedade de pratos à base de peixe. Os três pescadores, Domingos Martins Garcia, João Alves e Felipe Pedroso foram ao Rio Paraíba (Em cuja margem direita se localiza a Cidade de Guaratinguetá). Principiaram a lançar suas redes no Porto de José Correia Leite, descendo até o Porto de Itaguassu, onde João Alves, ao lançar sua rede, de rasto, tirou o corpo de uma imagem, sem cabeça, e, lançando mais abaixo outra vez a rede, tirou a cabeça da mesma estátua. Os esforços, antes improfícuos, tornaram-se recompensados de êxito com pescaria abundante. A cabeça ajustou-se exatamente ao corpo da imagem e, maravilhados, os pescadores viram ambas as partes colarem-se fixamente, apenas encostadas. Foram os dois primeiros milagres da Senhora Aparecida no Rio Paraíba, aos 13 de outubro de 1717.

        E prosseguiu o vigário no seu conto: Felipe Pedroso, piedosamente, levou o achado para sua casa, onde o conservou pelo espaço de seis anos. Muita gente da redondeza ia, especialmente aos sábados, rezar diante do oratório.

        Em 1743, construiu-se uma capela. Em 1846, iniciaram-se as obras de ocnstrução de um templo mais vasto, concluídas em dezembro de 1888 e permanecem na atual basílica.

        Após o relato do seu conto, o nosso vigário perorou a sua prédica, conclamando aos presentes que se postassem de joelhos, para, em uníssono, repetirem uma reza à Senhora Aparecida coroada, naquela hora, lá no Rio de Janeiro, padroeira e rainha do Brasil: "Escolhendo por essencial padroeira e advogada da nossa Pátria, nós queremos que ela seja inteiramente Vossa. Vossa a sua natureza sem par, Vossas as suas riquezas, Vossos os campos e as montanhas, os lares e os rios, Vossa a sociedade, Vossos os lares e seus habitantes, com seus corações e tudo o que eles têm e possuem; Vosso, enfim, é todo o Brasil... Por Vossa intercessão, temos recebido todos os bens das mãos de Deus e todos os bens esperamos ainda e sempre, por Vossa intercessão...".

        Durante os anos do meu curso primário, sempre assisti e participei de comemorações de nossas datas nacionais, em cujos programas sempre se acentuou a Nossa Senhora Aparecida. Para mim, ser devoto da Senhora Aparecida era condição indispensável para ser bom brasileiro.

        Concluído o curso ginasial, fui para Campinas (Estado de São Paulo) estudar no Seminário Diocesano Nossa Senhora Aparecida, onde não se ouvia um sermão sem que ela fosse mencionada. A jaculatória: "Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós!" repetia-se ao final de cada dezena do rosário. No altar-mor da capela, encontrava-se a sua imagem.

        Aconteceu, em setembro de 1942, o Quarto Congresso Eucarístico Nacional, em São Paulo. A Senhora Aparecida foi intitulada "Peregrina do Congresso". Programou-se o comparecimento da verdadeira imagem. Então, certa noite, o diretor do Seminário foi à capela pedir que rezássemos para que ela ficasse mesmo em São Paulo durante os dias do congresso. E, depois de haver eu ouvido pela centésima vez o relato de sua aparição, o padre destacou esta particularidade: "Depois de haver aparecido, os pescadores levaram a imagem para a casa de um deles, Felipe Pedroso, onde ficou alguns anos. Numa manhã, a família espantada deu pela falta da santa. Ansiosos, todos foram procura-la. Encontrara-na, depois de tanta angústia, no alto da colina. Levaram-na, de novo, para o seu altarzinho antigo, na casa do pescador. Poucas noites seguintes, ocorreu o mesmo incidente. Desconfiaram os devotos que Nossa Senhora Aparecida queria ficar numa igreja construída no alto do morro. Vieram as contribuições, a capelinha foi edificada e a imagem entronizada em seu altar, donde saíra uma única vez, em maio de 1931, quando fora levada ao Rio de Janeiro para ser coroada Rainha e Padroeira do Brasil."

        Receava-se agora, esclarecia o padre, que Nossa Senhora, durante à noite, voasse de São Paulo para a sua basílica em Aparecida do Norte.

        Pedia-nos rezas e mortificações para que a Santa Peregrina se dignasse permanecer na Capital Paulista durante os dias do Congresso Eucarístico.

        Fervoroso devoto, rezei muitos rosários e fiz muitos sacrifícios nessa intenção.

        Uma das festividades mais pomposas daquele congresso foi a recepção da padroeira que fora conduzida para a catedral da Praça da Sé, donde sai, processionalmente, para o Vale do Anhangabaú, com o fim de presidir as sessões solenes do certame. Retornava, em seguida, para receber as homenagens das multidões que se revezavam dia e noite. O povo devoto permanecia ali, aos pés da Santa Peregrina, no desígnio de venerá-la condignamente porque – supunha-se – satisfeita permaneceria em São Paulo até o fim das solenidades.

        A imagem ficou. Foi exaltada em extremo. Dom José Gaspar de Afonseca e Silva foi cognominado o arcebispo de Nossa Senhora Aparecida, que, para confirmar o mérito desta alcunha, erigiu, na Várzea do Ipiranga, uma nova paróquia dedicada à Nossa Senhora Aparecida.

        Mas, qual não foi o nosso desapontamento ao sabermos que a verdadeira imagem não viera a São Paulo. Recebêramos apenas um fac-símile! Encerradas as festividades do congresso, fôra entregue a recém-instalada paróquia. Alguns seminaristas se revoltaram e se julgaram vítimas de um ludíbrio.

-        "Rezamos tanto diante daquela imagem, supondo-a verdadeira..."

Conformei-me por estar convicto de que o povo não merecia sua augusta presença... E porque as autoridades eclesiásticas agiram com prudência...

Afinal, todas essas circunstâncias suscitaram em minha alma um afeto entranhado à Padroeira do Brasil...

Ao ser ordenado padre, em 1949, senti-me no dever de ir à sua basílica cantar uma missa, por sinal a segunda, porque cantara a primeira em minha terra natal. Nesse ensejo, adquiri uma sua imagem, fac-símile, benta pelo padre superior do convento, destinada por mim para me servir de companhia e penhor constante das bênçãos celestiais em favor do meu sacerdócio.

Completados dez anos de sacerdócio, recebi como uma verdadeira promoção, minha transferência para Guaratinguetá (Localizada à margem direita do Rio Paraíba, no Estado de São Paulo. Dista, pela Via Dultra, aproximadamente, 220 Km do Rio de Janeiro, 185 Km de São Paulo e 8 Km de Aparecida do Norte.), a cidade mais próxima de Aparecida do Norte.

Fui nomeado pároco da novel Paróquia de Nossa Senhora da Glória, no Bairro do Pedregulho. Sua igreja, que, de tão pequena, o povo a cognominava de "igrejinha", não oferecia condições para, realmente, ser uma matriz paroquial. Decidi, por isso, construir um vasto templo. Constituía-se, a mim, uma imensa prerrogativa edificar essa obra consagrada à Virgem Maria, e sonhava com um templo majestoso erguido naquele outeiro do Pedregulho a olhar a Basílica Nacional da Padroeira, plantada na colina de Aparecida do Norte. Lá do alto da torre da minha matriz, fiquei muitas vezes contemplando a Basílica da Rainha do Brasil.

 Eu odiava os evangélicos, aos quais chamava de hereges.

Nesse tempo, apareceu lá em Guaratinguetá, um pastor. Nos seu desejo de esclarecer o povo, contratou, numa das emissoras radiofônicas locais, um horário para um programa evangélico.

Descontentaram-se, com as explicações, muitos católicos.

Um meu colega decidiu responder ao pastor por meio de um programa seu, numa outra emissora.

Estabelecida a polêmica, a cidade inteira se transformou em estádio para assistir a contenda.

O coitado do padre pediu água em menos de uma semana.

Evidentemente, qualquer jovem das Escolas Bíblicas Dominicais, com a Bíblia na mão, põe qualquer padre a correr.

Nós os padres em Guaratinguetá, estávamos acuados, arrasados, com o fracasso do colega. E na certeza absoluta de que, se qualquer um de nós fosse responder ao pastor, cairíamos no mesmo ridículo.

O pastor João de Deus prosseguia dando os seus esclarecimentos bíblicos. Nessas alturas, o assunto girava em torno de Maria.

Naquela oportunidade, encerrara eu, com uma retumbante procissão, as festividades da padroeira da minha paróquia. O pastor evangélico botou água na fervura do meu entusiasmo, criticando o meu desfile mariano e citando Isaías 45:20.

Fiquei fulo!

Noutro dia, o Pastor resolveu apresentar aos seus radiouvintes os pontos coincidentes entre a Diana dos efésios e a Aparecida dos brasileiros - Atos 19:23-41.

Nós não tínhamos força de argumento. E o jeito foi apelar para o argumento da força!

A mentira, a calúnia, o achincalhe são os melhores argumentos para os covardes sem argumento.

Incubiram-me de resolver o problema.

Apelei para a violência, comandando um batalhão de fanáticos. E, em menos de uma hora, num domingo à noite, foi destruído, inteiramente, o templo do Pastor João de Deus, lotado de gente que assistia a um culto.

No dia imediato, no programa "Marreta na Bigorna", da Rádio Aparecida, o padre Galvão, desatou uma gargalhada satânica e parabenizou os católicos de Guaratinguetá pela façanha...

Um bispo congratulou-se vivamente comigo e, hora após ao nosso encontro, declarou, por um grande jornal de São Paulo, que lamentava os fatos ocorridos em Guraratinguetá!?

Estreitíssimas mais ainda se tornaram minhas relações com os padres responsáveis pela Basílica de Aparecida, em cujo convento se fabrica, exclusivamente para o consumo interno, cerveja mui apreciada entre os reverendos.

No trato com os clérigos seculares, constatei a falta de amor fraterno entre eles. Supunha, todavia, que houvesse amor entre os regulares ou conventuais, como os franciscanos, jesuítas, dominicanos, salesianos, redentoristas. Engano!

Entre estes últimos, que são os responsáveis pela Basílica e de quem mais me aproximei, acontece a mesma carência, senão pior.

Lá dentro do seu convento, ao lado da Rainha do Brasil, os padres se estracinham com ódio extremado. Os apelidos são os mais humilhantes. Havia lá o "padre Tortinho", o "padre Marreta", o "padre Aventura", o "padre Zoroaide", o "Madame Fifi"... E de cada um havia um motivo especial indicado pelo próprio vocábulo...

Sentia, outrossim, a frieza espiritual naquele ambiente de embatinados. Sempre os vi tratando das coisas de sua religião com ganância sórdida. Só lhes interessa o que dá lucro.

A respeito de qualquer assunto, a pergunta é sempre esta: -"Quanto rende?" – acompanhada do sinal característico de se friccionar as pontas dos dedos polegar e indicador.

E fazem praça disso até na sua emissora. Certa feita, chegou uma carta perguntando sobre as riquezas da Senhora Aparecida. Respondeu-a o padre Tortinho no seu programa radiofônico: -" Sim, Nossa Senhora é muito rica. Rica mesmo! Ela tem hotéis, restaurantes, bares, casas de aluguel – muitas casas de aluguel! – Kombi, peruas... Ela tem muito dinheiro... Dinheiro que os seus fiéis mandam e trazem... Ela tem muitas jóias, anéis, braceletes, colares. Ela tem muito ouro e pedras preciosas... Quem tem ouro e pedras preciosas, mande para Nossa Senhora..."

A cupidez é tamanha que as suas lojas não respeitam sequer o domingo cerrando suas portas.

O devoto chega para cumprir uma promessa. Compra um vela na loja pertencente aos padres e, a propósito situada ao lado da Basílica e anexa à porta da entrada da emissora. Ao entrar no templo, porém, depara com a proibição terminante de acender velas. Apresenta-se-lhe, outrossim, a solução: -"Deixar o brandão numa caixa adrede colocada ao lado do altar da Padroeira. O pagador de promessa sai na doce ilusão de que o padre vai, em sala adequada, queimar a sua vela em honra da santa. Engana-se porque um dos sacristãos recolhe todas lá depositadas, levando-as novamente para a loja. E a vela do devoto caiu no círculo rendoso dos clérigos. Sai da loja, vai para a caixa da Basílica, volta à loja, de novo, na Basílica... e o dinheiro cresce na caixa registradora.

Tudo lá é comercializado! E os redentoristas não admitem concorrência, nem por parte dos seus colegas de outras igrejas. Num fim de não, um sacerdote da Guanabara, com o objetivo de angariar fundos para a construção de um templo, instalou, num terreno alugado, um presépio mecanizado e movido a eletricidade, cobrando dos interessados o ingresso ao loca. Pois, os padres da Basílica protestaram e obrigaram o coitado a "arrumar a trouxa e dar o fora". Todo o mundo só pode ver o presépio deles para lhes deixar o dinheiro. Em Aparecida, a arrecadação de esmolas é direito reservado... De todas as partes afluem contribuições para os seus cofres. Mas, ninguém pode ir lá colher uma migalha...

A ganância atinge os paroxismos da usura! Enquanto os governos retiram o pedágio das estradas, em Aparecida é instalado para cobrar taxas exorbitantes dos automobilistas que lá entram.

Fui convidado para celebrar um casamento de pessoas amigas e muito ricas. Por ser sábado à tarde, havia muitos outros. Os noivos, meus amigos, pagaram todas as elevadas propinas estabelecidas pela direção do santuário aparecidano. Na conformidade em que os noivos adentravam no templo, ao som da marcha nupcial, um servente da Basílica enrolava o grosso tapete de veludo grená. É que logo atrás, entrava um para de nubentes pobres. Não lhes permitiram as posses, pagar a taxa referente ao tapete e tiveram de passar sob os olhares maternais da incomparável protetora dos brasileiros, por essa humilhação. O pior ainda aconteceu depois! Chegados junto dos degraus do altar da Senhora Padroeira, foram embargados seus passos pelo referido servente, que os encaminhou para um altar lateral. A noiva, desconsolada, explicou ao sacerdote celebrante de suas núpcias... que viera do Paraná precisamente para casar-se no altar da Rainha em cumprimento de uma promessa. Inúteis seus rogos e vãs suas lágrimas... O padre irritado alegou que essa promessa não tinha valor algum e "mastigou", em cinco minutos, a fórmula do ritual.

Tudo isso me indignava. Mas, tudo isso consolidava ainda mais minha devoção à Senhora Aparecida. Tornava-me compadecido dela por vê-la cercada desse deboche e explorada por essa chusma de crápulas.

Um bispo do Interior Paulista tem carradas de razão ao afirmar que a Aparecida do Norte é a vergonha do catolicismo no Brasil!

Quase todos os dias freqüentava a Basílica, onde permanecia muito tempo rezando, de joelhos, o rosário diante da imagem.

Desde tenra infância ansiei por certeza da minha salvação eterna. Procurei-a em inúmeras devoções que me foram sugeridas. Busquei-a no exercício do ministério sacerdotal católico. Vali-me da prática da caridade, criando e dirigindo obras sociais. Tudo em vão...

Tomei-me de esperanças quando cheguei em Guaratinguetá. Imensa era minha expectativa de encontrar na Senhora Aparecida a bênção da certeza da vida eterna.

Por isso, ia amiúde à sua igreja rezar longos rosários defronte da sua imagem, no aguardo de uma resposta celestial...

Numa tarde de quarta-feira, no começo do ano de 1961, em seguida às funções rituais da Novena Perpétua, a que eu assistira, um sacerdote – com um psiu! – tirou-me do meu recolhimento devoto.

Aproximei-me dele.

Peguntou-me à queima-roupa:

-        O que você vem fazer aqui quase todos os dias? -        Rezar à Nossa Senhora Aparecida, respondi-lhe. E, ante o sorriso gracejador do padre, esclareci:

-        Sou muito devoto de Nossa Rainha e espero dela todas as graças necessárias para minha salvação eterna...

Não pude mais falar porque o padre me interceptou com vivacidade:

-        Você parece um beato vulgar. Que lhe poderá dar essa estátua de barro? Ela não tem valor algum. Nós gostamos dela porque nos traz muito dinheiro.

E, levando as duas mãos aos bolsos, fez o gesto significativo de quem carreia vultosas somas.

Pávido, arrisquei a pergunta:

-        Mas... E os padres não crêem em Nossa Senhora Aparecida?

Um retumbante NÃO abafou as últimas sílabas da minha interrogação.

Saí da Basílica atordoado.

Passei a noite seguinte em claro, rememorando fatos e tirando conclusões.

Aterrorizado, sentia esboroarem-se as restantes ilusões da minha vida religiosa.

Encorajado pelo propósito de servir a Deus desvencilhado de todos os embustes, decidi levar, até às conseqüências extremas a minha investigação sobre o assunto.

Não me foi muito difícil. Aproveitei a deixa daquele sacerdote e, noutro dia, abordei-o novamente.

Relatou-me ele os verdadeiros fatos relacionados com a imagem da Senhora Aparecida. Relato esse confirmado ulteriormente, por outros sacerdotes, seus confrades conventuais.

Compadeço-me do brasileiro...

Povo de excepcionais qualidades. Inteligente e dotado de sentimentos primorosos. Capaz de heroísmos e tão paciente...

Haverá, porventura, povo mais paciente que o brasileiro? Quanta esperança ele vem revelando em tanto sofrimento... em tanta exploração a que é submetido.

Muitas vezes ludibriado em sua boa fé, porém, sempre confiante.

É um crime de lesa-humanidade explorar-se esse povo. Por isso, estou revelando estas informações. Desejo ardentemente cooperar com esse povo excepcional em sua libertação dos embusteiros. Eu sei perfeitamente que recrudescerão as perseguições movidas pelo clero contra mim. Mas, vale a pena sofrer pela emancipação espiritual do Brasil.

Brasileiros, a Senhora Aparecida é uma falcatrua! É um conto do vigário!!!

Você que se supõe seu devoto está sendo enganado!

Você que tem em casa a sua imagem e lhe acende velas, está sendo ludibriado!

Você que lhe manda esmolas está sendo esbulhado!

Você que vai, em romarias, à sua Basílica, está sendo ridicularizado!

Sim, senhores! Eu vi os padres zombarem e pilhariarem dos romeiros... Vi-os praguejar os devotos romeiros que colocam no "sagrado cofre" notas velhas e rotas a lhes exigirem consumo de adesivos...

Vou relatar os fatos verídicos referentes à imagem dessa "senhora".

Localiza-se o início de sua "história" no período da Colonização Brasileira.

Corriam muitas lendas sobre descobertas de jazidas riquíssimas de ouro e outras preciosidades. O contágio do entusiasmo atingia as vascas do fascínio. O povo-paulista, sobretudo, ardia numa febre desvairada provocada pelas lendas das esmeraldas, as valiosíssimas pedras verdes, cujas montanhas se encravavam quais seios úberes em plena selva.

Este sonho acutilante é que produziu as maiores epopéias das nossas Bandeiras, uma das mais empolgantes páginas da História-Pátria. Se não descobriram as montanhas verdes das esmeraldas, os bandeirantes plantaram cidades e dilataram o território nacional apertado na faixa estabelecida pelo Tratado de Tordezilhas, imposto pelo papa Alexandre VI aos descobridores espanhóis e portugueses.

Sim! Essas Entradas é que desbravaram o sertão, devassando e conquistando, com sua audácia o imenso território do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, de Mato Grosso, do Paraná, de Goiás e de grande parte de Minas Gerais. Porque a "bota de sete léguas" dos bandeirantes chutou os limites de Tordezilhas...

A miragem das montanhas de pedras verdes ardeu por várias décadas, na mente de muitos brasileiros do Planalto de Piratininga. Fulgurou, sobretudo, no espírito do indônito Fernão Dias Paes Leme, o bandeirante por autonomásia, cuja morte, em plena selva, transferiu para Sebastião Raposo Tavares o fascínio de desvendar o segredo daquela descoberta alucinante.

O fim desastrado da jornada de Raposo Tavares, em 1713, entanto, assinalou o último sonho das esmeraldas, que deixou, em São Paulo, qual cicatriz, um profundo sentimento de frustração.

É de se notar que, à exceção de uma ou outra, todas as Bandeiras iniciaram sua jornada saindo do Planalto Piratiningano pelo Rio Paraíba, em cujo Vale deixavam, como rastro, uma enorme expectativa na alma do povo.

Se as esmeraldas, porém, foram uma quimera que não se transubstanciou em realidade, não aconteceu o mesmo com o ouro explorado em Minas Gerais, o causador do incêndio de cobiça irresistível, origem de muitos crimes e inomináveis traições.

Naquela época em que o Brasil era Colônia de Portugal, não se repartia ele em Províncias ou Estados como hoje. Mas, em Capitanias, dirigida cada qual por um Governador nomeado por El Rei português e vindo diretamente de Além Mar.

O governador Dom Braz Baltazar da Silveira não conseguiu mais por cobro às desordens reinantes na Capitania de São Paulo e Minas Gerais, de sua jurisdição, nem reprimir o contrabando do ouro e, muito menos, coletar os impostos estabelecidos pela Coroa real.

El Rei Dom João V houve por bem, nessa conjuntura, chamar o inábil Governador e substituí-lo. E, em junho de 1717, o Capitão General, Dom Pedro de Almeida Conde de Assumar, aportou no Rio de Janeiro, donde via Santos, se encaminhou, incontinenti, para São Paulo, sede da Capitania.

Num ambiente tranqüilo e, ainda, oprimido pelas frustrações da Bandeira de Raposo Tavares, o novo Governador, aos 4 de setembro de 1717, foi empossado no seu cargo.

Ao contrário de Piratininga, nas Minas Gerais, o clima era de exaltação incendiada pela ganância de ouro, cuja mineração provocava os mais pacatos.

Competia ao Governador recém-empossado restabelecer a justiça, recolher os tributos e exigir o retorno da ordem.

O Conde de Assumar toparia com uma barreira formidável a lhe embargar a consumação dos seus propósitos.

É que os frades eram "dos elementos mais perniciosos entre os que tinham entrado e continuavam a entrar com as avalanches, que enchiam aqueles distritos, e não só porque se entregavam desenfreadamente ao ganho como todo aquele mundo, mas ainda porque, valendo-se do seu ascendente sobre o espírito da massa, eram quase sempre os promotores de todas desordens". Desgraçadamente os compêndios de História do Brasil das nossas escolas aureolam os padres e os frades do tempo da nossa Colonização com as glórias de heróis. Os seus autores sabem q        eu se disserem a verdade, os seus livros não terão guarida nos ginásios, em grande parte, dirigidos, maquiavelicamente, por padres e freiras.

Aquelas nossas informações, acima entre-aspas, são de Rocha Pombo, em sua História do Brasil (Rio de Janeiro – 1905 – Pág. 245), cuja primeira edição deveria ser lida por todo o intelectual brasileiro (Salientei a primeira edição porque as subseqüentes foram resumidas e mutiladas.).

A maioria dos patrícios supõe que naqueles tempos Portugal açambarcava todo o ouro bateado pelos lavageiros ou garimpado nos veios das rochas. Supõe, também, que, em tempos posteriores, a Inglaterra usurpou-o das bruacas lusitanas. Verdade é que o Reino estabelecia impostos, arrecadados pela quintagem, com o fim de beneficiar o seu erário.

Os frades, porém, não vieram para o Brasil com a missão de catequizar. O historiador Rocha Pombo, no mesmo espaço referido, informa-nos de que o Conde de Assumar, dentre as questões a enfrentar, tinha de se haver com a da "expulsão de todos os religiosos regulares" (Frades na conceituação clerical católica.) que não tivessem naquela província do seu domínio uma função certa, própria do seu apostolado".

Tinham esses religiosos outra incumbência bem diversa da apregoada e que causou graves prejuízos ao Brasil. Vieram carrear ouro para o papa e para os seus conventos na Europa!

O ouro do Brasil em grande parte, encontra-se ainda hoje, em poder do Vaticano, que o faz ocupar o segundo lugar mundial no mercado desse valor precioso, cujas reservas o papa deposita no Federal Reserve Bank, em Washington. O papado não ocupa o primeiro lugar no mundo nesse mercado porque preferiu trocar uma parte do seu ouro com outros valores, como dólares, que atingem a cifra astronômica de 15 bilhões, e em títulos de sociedades italianas avaliados em 1 trilhão de liras e de sociedades de outros países cotados em 2 bilhões de libras esterlinas. E essa riqueza fabulosa e atual do Vaticano o faz no maior acionário do mundo!

Enquanto os brasileiros lutam desesperados para escaparem dessa situação de sub- desenvolvimento, estrangulante de nossas energias, o Ali-Babá do Vaticano se enriquece cada vez mais à custa dos investimentos do ouro e outra riquezas que os seus padres levaram do Brasil.

Convencido da gravidade da situação em Minas Gerais e da sua responsabilidade no termo da mesma, o conde de Assumar decidiu interferir pessoalmente.

Deixando como seu substituto em São Paulo, o oficial de grande patente, Manuel Bueno da Fonseca, partiu em fins do mesmo mês de sua posse (setembro de 1717), com destino a Ribeirão do Carmo (hoje Mariana), em Minas Gerais.

Naqueles remotos tempos essa viagem só podia ser feita via Vale do Paraíba (Norte do Estado de São Paulo).

Guaratinguetá é uma das cidades desse Vale. Foi fundada à margem direita do Rio Paraíba, em 1641, pelo Capitão-Mor Dionísio da Costa, lugar-tenente do donatário e, por isso, gozava de grande prestígio até os fins do regime das Capitanias.

O Conde Assumar chegou, com sua comitiva, nessa cidade, aos 12 de outubro. Prontamente, as autoridades locais, que o aguardavam, promoveram-lhe toda sorte de homenagens e repeitos.

Por ser o catolicismo a religião oficial do Reino, o vigário destacava-se nas cidades como a autoridade mais importante. O "batizado" pelo padre equivalia ao registro civil. O casamento era só no religioso. Quem não era católico era considerado como um criminoso de lesa-pátria, não podia casar-se e nem registrar os filhos...

Esta posição do catolicismo outorgava aos vigários, o ensejo de serem ótimos arrecadadores de riquezas para o pontífice de Roma.

Em Guaratinguetá, encontrava-se, como vigário, o jovem padre José Alves Vilela.

Como todo clérigo, conhecia perfeitamente a arte de bajular.

Pelo próprio fato de ser o catolicismo romano a religião oficial do Reino de Portugal, a nomeação dos bispos dependia inteiramente da indicação feita pelo Rei.

O padre Vilela sofria de "bispite" aguda. Do desejo desenfreado de ser bispo! Percebeu na passagem do Conde de Assumar por sua paróquia, uma extraordinária oportunidade de, sabujando, credenciar-se às boas graças do Governador, que o apontaria a El Rei como candidato à mitra.

E mãos à obra! A par das demonstrações cívicas de respeito ao Governador promovidas pela Câmara, o padre Alves Vilela, como autoridade mais importante do lugar, programou festas religiosas de grande aparato para impressionar o homenageado.

Desde sempre o clero gostou de se valer de sue ritualismo litúrgico para engodar as autoridades civis com o objetivo de sugar-lhes subvenções ou propiciar clima para se manter prestigiado. Num dos nossos Estados, os bispos condenaram a candidatura de certo cidadão à governança. Feridas as eleições e vitorioso o candidato anatematizado, os "amantíssimos ordinários" (Ordinário é o termo canônico designativo de bispo diocesano.) promoveram-lhe demonstrações de "afeto e deferência", culminando a sabujice, no dia de sua investidura, com uma missa de "ação de graças" mui solene.

Para se colocar bem diante do Conde Governador, preocupado e zangado com os clérigos baderneiros de Minas Gerais, "promotores de todas as desordens" (Rocha Pombo – loc. cit.), o padre Vilela tomou atitude oposta aos seus colegas. Reconheceu na sua subserviência ao chefe da Capitania uma oportuníssima manobra para conquistar-lhe a simpatia.

Entre o clero há traidores dos padres traidores!

Enquanto os frades de Minas traíam sua posição aparentemente de catequistas, causando baderna, o padre Vilela manifestava-se servil.

Nas águas turvas da situação de descrédito em que se imergiam os frades, o padre Vilela quis pescar um peixe gordo. O peixe de uma posição perante o Governador favorabilíssima às suas pretensões "bispais".

E como o peixe se pega pela boca, alvitrou oferecer ao Conde um opíparo banquete.

Mas, um desses banquetes de assinalar marco na história da culinária!

Notabilizara-se o Rio Paraíba pelas suas águas piscosas. Por isso, os pratos em peixe distinguiam a cozinha vale-paraibana. O banquete oferecido pela comunidade guaratinguetaense ao ilustre viajante, pois na programação estabelecida pelo incensador padre Vilela, se revelaria por grande fartura de peixes nas mais diversas modalidades de temperos.

O jovem e pretensioso vigário divisou no ambiente uma circusntância especialíssima para ser aproveitada naquele acontecimento. E decidiu capitalizar a seu favor a frustração do povo do Vale pelos insucessos das últimas Bandeiras, cujas miragens de esmeraldas se esboroarem.

Decepcionado, todavia, não se descoroçoara o povo. Esperava encontrar alguma coisa de notável.

Desde o princípio do seu paroquiato travara o padre Vilela conhecimento com os pescadores de sua freguesia e da região. Deles, e somente deles, é que esperava a mais decidida cooperação nas suas festividades religiosas porque a pesca, naqueles tempos, acima mesmo da agricultura incipiente, se estabelecia como a mais importante fonte de riquezas do Norte da Capitania.

E dentre os pescadores seus conhecidos, três se distinguiam pela espontaneidade em auxiliar, pela singeleza de usa fé e, sobretudo, pelo seu acatamento às solicitações do vigário. Domingos Martins Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, os seus nomes!

Procurou-os, então, o padre Vilela, incumbindo-lhes da pesca para o banquete- homenagem.

Nem estranharam a dedicação e o interesse do seu vigário por aquela pesca. Supunham-no desejoso realmente de exaltar à visita do Governador as qualidades da cozinha da Vila, de lhe demonstrar respeito e, certamente, creditar a região a favores futuros.

Admirados, contudo, receberam no dia do banquete (13 de outubro de 1717), manhã cedo, as ordens do vigário no sentido de que lançassem suas redes no Porto de Itaguassu, próximo do morro dos Coqueiros. Como ativos pescadores, sabiam que os peixes permanecem mais nas partes clamas do rio e não é possível pesca alguma junto de um porto, onde há tanta movimentação.

Toda aquela zona dispunha do Rio Paraíba como principal via de comunicações e transportes. E, dentre os portos, o de Itaguassu se destacava por servir vasta extensão.

Em vista da sua própria profissão, entendêramos pescadores a ineficácia da ordem extravagante do vigário. Mas, ingênuos e submissos, obedeceram. Não lhes convinha desacatar o sacerdote ameaçador e capaz de pragueja-los e amaldiçoa-los.

Lançaram a rede na convicção de nada apanhar. Surpresos, porém, retiraram das águas uma imagenzinha, de 0,30 m de altura, talhada, em terra cota escura, nos moldes da Madona de Murilo, que o clero se utiliza como símbolo da "Imaculada Conceição" de Maria.

Decidiram guardar a imagem aparecida nas águas dentro do embornal e prosseguir além sua tarefa.

Obtida a quantidade de pescado exigida pelo clérigo anfitrião, foram à sua residência fazer-lhe a entrega.

E, jubilosos e na sua crença ingênua, mostraram ao padre, misturado na comitiva do Governador, a imagem aparecida.

Enternecido o vigário pelo sucesso do seu empreendimento, pois ninguém soubera e nem desconfiara de sua ida durante a madrugada ao Porto de Itaguassu para deixar nas águas aquela imagem, despejava suas expressões religiosas e deslambidas acentuando o "fator milagre" daquela descoberta.

Todo o povo daquela região, presente em Guaratinguetá, para conhecer o Governador, Conde de Assumar, ludibriado em sua credulidade, exultou com o "milagre" sucedido, vinculando-o à santidade do seu vigário e divulgou a notícia à distância.

-        Arre! Se falharam as aventuras em busca de esmeraldas, o "milagre" interveio para dar ao povo desiludido uma preciosidade muito maior!!!" - Parafusava o padre, que, de propósito, havia colocado a imagem nas águas do Porto de Itaguassu.



Na intenção de valorizar o enredo do seu estratagema religioso achou melhor entregar a estátua a um dos pescadores, Felipe Pedroso, residente no sopé do morro dos Coqueiros.

Retirando-se o Conde de Assumar no seguimento de sua viagem, os fiéis, em procissão, aocmpnharam o felizardo pescador, que, piedosamente, colocou, sob a emoção dos circunstantes, a imagem aparecida entre os "santos" do seu tosco oratório.

Inglórios os esforços do padre Vilela junto ao Governador! Tão assoberbado de problemas em sua curta estadia no Brasil à testa da Capitania São Paulo, não teve sequer a lembrança de sugerir a El Rei o nome do clérigo Vilela como candidato a bispo de alguma diocese do Reino.

Não se desesperançou o padre. Decidiu incentivar a devoção da senhora aparecida, promovendo atos religiosos na casa de Felipe Pedroso. Quem sabe se o seu nome assim ligado à estátua aparecida "milagrosamente", se encheria de fama e repercutiria nos ouvidos do supersticiosíssimo El Rei Dom João V, que ouvia missas sobre missas, distribuía dinheiro a rodo a quantos santos figuravam no calendário, enchia de ouro os conventos e, enlevado por violenta paixão à sua amante, a freira Paula, do convento de Odivelas, alcançou do papa o título de Rei Fidelíssimo.

As esmolas lançadas, em grande cópia, no oratório da santa, permitiram ao vigário sonhador da mitra episcopal, repartir com o devoto Felipe Pedroso, que pode obter numerário para comprar uma pequena fazenda e construir casa nova em Ponte Alta, também nas proximidades do Porto de Itaguassu, onde entronizou, em oratório novo, a imagem de terra cota aparecida.

A devoção mais importante e mais concorrida nesse local acontecia aos sábados à noite.

Sucedeu a Felipe Pedroso, após a sua morte, na incumbência religiosa, o seu filho Atanásio. Um pouco arredio a essas beatices, este herdeiro achou melhor construir fora de sua casa uma capelinha para se ver livre das importunações dos devotos e transferiu à Silvana da Rocha o mister de puxar as rezas e os cânticos. Primava a rezadeira-mor, Silvana, em dirigir o rosário dos sábados, incrementando a afluência dos humildes com animados bailes regados à pinga após a reza na intenção de alegrar os devotos caboclos desprovidos de outros divertimentos.

Os anos se passaram e o nome do padre Alves Vilela, sem ser sugerido nas eleições dos bispos!

Em 1742, Dom João V foi acometido de uma paralizia que o imobilizou para sempre apesar de suas treze jornadas às Caldas da Rainha (Nas proximidades de Leiria, ainda é das mais importantes estações termais de Portugal), escoltado por um exército de freiras e padres interesseiros.

O vigário de Guaratinguetá, agora já encanecido, porém esperançoso, mantinha-se ao par de todas as notícias vindas de Além Atlântico.

Conhecedor da carolice de El Rei e sua magnanimidade em proveito dos clérigos, urdiu outra investida com o objetivo de atrair as atenções "majestáticas" sobre si.

Certo sábado, em 1743, quando os devotos chegaram à capela, surpresos, deram pela falta da santa aparecida. Atônitos ficaram quando Silvana Rocha desconhecia também o seu paradeiro mesmo depois de se informar com Atanásio. Desesperados, correram falar com o vigário que se fingiu surpreendido. Aconselhou-os, porém, a que dessem uma batida nas redondezas e que não se esquecessem de ir até o alto do morro dos Coqueiros. Dóceis à orientação do padre, vasculharam todos os recantos, e, por fim, subiram os rapazes ao morro, onde, para alívio geral, encontraram a imagem encostada em uma pedra. Nessa noite, o rosário foi rezado com mias fervor, os hinos mias vibrantes e o baile mais animado com pinga distribuída abundantemente na algazarra do reencontro da Senhora Aparecida.

Noutros sábados, o fato misterioso se repetiu sem que os pobres devotos percebessem a mão do vigário atrás de tudo.

O padre Vilela, ao sentir-se seguro do êxito de seu plano, num sábado, foi até Ponte Alta puxar ele a reza. Desta feita, ainda outra vez, a busca da imagem fugidiça precedeu o ato religioso, porque o padre mandara ainda outra vez, retira-la às ocultas e leva-la para o cume do morro. Então, na qualidade de vigário e ministro de Deus, aconselhou o povo devoto que se construísse lá no alto do morro um templo para a santa.

De imediato, foram abundantes os donativos. Todos queriam concorrer a fim de contentar os desejos da santa aparecida no sentido de que lhe construíssem um templo no alto do Morro dos Coqueiros, conforme havia interpretado o vigário aquelas fugas constantes.

Em cumprimento de exigências eclesiásticas, o padre José Alves Vilela valeu-se do bispado do Rio de Janeiro (O bispado de São Paulo, a cuja jurisdição pertenceram Aparecida do Norte e Guaratinguetá, somente foi criado em 1745.) , a cuja jurisdição canônica se submetia para requerer a devida licença a fim de erigir o templo. Na esperança de divulgar nas altas rodas clericais, o valor sobrenatural da sua santa aparecida, o que lhe poderia render prestígio junto a El Rei, salientou em seu requerimento:"...que pelos muitos milagres que tem feito a dita Senhora, a todos aqueles moradores, desejam erigir uma capela com o título da mesma Senhora da Conceição Aparecida, no distrito da dita freguesia em lugar decente e público por concorrerem muitos romeiros a visitar a dita Senhora que se acha até agora em lugar pouco decente..."

A provisão de licença foi passada na chancelaria do bispado do Rio de Janeiro, em 5 de maio de 1743. E tudo se tornou mui fácil, porquanto, Dona Margarida Nunes Rangel, proprietária do Morro dos Coqueiros, houve por magnanimidade, fazer doação de toda a colina.

Afluíram donativos abundantes e, a 26 de julho de 1745, o padre Vilela benzeu o templo e rezou nele a primeira missa, suspirando para que El Rei, o beato sonso Dom João V, se lembrasse dele nas escolhas dos bispos.

Já alquebrado pela idade avançada, morreu como simples vigário de Guaratinguetá, o padre ambicioso, e a Aparecida caiu na vala comum das pequenas capelas do Interior brasileiro.

Em fins do século passado, Aparecida foi tirada da sua insignificância, onde permanecera por mais de cem anos após a morte do seu criador, Padre José Alves Vilela.

Em 8 de dezembro de 1888, o bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato de Carvalho, benzeu um novo templo construído em substituição do anterior erigido pelo sacerdote inventor da "santa" e resolveu entrega-lo à administração de alguma ordem ou congregação religiosa.

A congregação dos padres redentoristas gozava, na época, de grande nomeada nos círculos romanistas, pois o seu fundador, o italiano Afonso de Liguori, além de ser canonizado santo, em 1839, havia sido, em 1781, proclamado pelo papa Pio IX, "doutor da igreja". Dentre as sua diversas ob rãs literárias, destacam-se a "Teologia Moral" e as "Instruções e Método para os Confessores", pelo seu conteúdo referto de normas utilizáveis com grande resultado no confessionário, o instrumento infernal da escravização das consciências.

Por causa da "importância" de Liguori, cresceu a influência de sua ordem religiosa, e também em razão de sua finalidade, que consiste em dispor os padres,k seus membros, a pregar missões populares. Distinguem-se estas por uma série de pregações retumbantes e fantasmagóricas como arremates de procissões imbecilizadoras.

Liguori estabeleceu a sua congregação para a Itália Meridional do seu tempo, com uma população rural ignorante e de sangue quente. Referindo-se a esses italianos, o padre redentorista Hitz, observa: "...gostam das manifestações fortes... São superficiais, levianos, desmazelados, supersticiosos, e apegam-se sobretudo às práticas exteriores da religião (P. Hitz, sacerdote redentorista – "A pregação Missionária do Evangelho" – Livraria Agir Editora – Rio de Janeiro – 1962 – pág. 181. Seria de ótimos resultados para os padres da Aparecida do Norte a leitura desse livro, máxime do seu capítulo III). Foi para conservar esse povo agrilhoado às superstições romanistas, assim considerado pelos seus líderes religiosos, que Liguori determinou, com minúcias, os temas e os esquemas dos sermões das "santas missões" as serem pregadas por seus padres. No plano do fundador dos padres redentoristas, os fiéis devem, ao final desse trabalho, ser encaminhados ao confessionário para que se consume o seu cativeiro espiritual.

As "santas missões" dos redentoristas fundam-se num moralismo antropocêntrico, infinitamente distante do cristianismo. Aliás, servem bem ao romanismo, cujo ritual coloca o endeusamento da criatura acima de tudo.

O bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato de Carvalho, julgou os brasileiros semelhantes aos depreciados italianos meridionais por estarem também, os nossos patrícios, seus contemporâneos, encharcados das superstições católicas. E entregou o templo da Senhora Aparecida à direção dos padres redentoristas, em fins de 1894.

Esses padres, incontineti, começaram suas incursões fanatizadoras pelo Interior dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro, por meio das missões populares, quando divulgaram profusamente as lendas referentes à Senhora Aparecida. O nosso povo, humilde e distante das fontes puras da Bíblia, aceitou ingenuamente es em qualquer exame, essa fábula, que, também eu, em criança ouvi.

Pelo confessionário, os redentoristas impunham aos fiéis, narcotizados pelas suas mentiras e modelados aos seus caprichos, penitências de rezar fórmulas especiais à Aparecida e de ir ao seu santuário em romarias.

O povo desprovido dos recursos essenciais a uma sub-existência condigna e imerso nas trevas do analfabetismo é sempre presa fácil dos embusteiros, máxime quando se apresentam revestidos de roupagens exóticas e com a voz repassada de acentos ameaçadores.



Os pregoeiros do "aparecidismo" espalharam entre o nosso pobre e abandonado povo, no intuito de fanatiza-lo e escraviza-lo mais, aquela deslambida "Oração a Nossa Senhora Aparecida para pedir a Sua Proteção", que começa assim: "Ó Incomparável Senhora Conceição Aparecida, Mãe de Deus, rainha dos anjos, advogada dos pecadores..." Em seguida a esta relação de tantas heresias, o pobre brasileiro suplica-lhe que o livre "da peste, fome, guerra, trovões, raios, tempestades e outros perigos e males que nos possam flagelar".

Aconselhado pelo missionário, o simplório cola o papel dessa reza atrás das portas de sua casa e se supõe imunizado, protegido e livre de todas as desgraças.

Quando eu era pároco em Guaratinguetá, num domingo, fui rezar missa numa capela da zona rural. Desabara durante a noite precedente, um horrendo temporal. E a notícia lúgubre enchia de tristeza todos os moradores da região! Um raio penetrara numa choça e fulminara todos os seus moradores. Encaminhei-me para lá. Entrei no casebre. Olhos esgazeados de pavor, encontrei três corpos esturricados no chão. E atrás das portas toscas a protetora reza da "incomparável...".

As primeiras "santas missões" populares produziram os frutos esperados. Já em 1900 começaram as romarias. O novo bispo de São Paulo, Dom Antonio Cândido de Alvarenga, continuou o interesse de seu antecessor, Dom Lino, pela Aparecida do Norte, pois previa os seus resultados financeiros como comércio da credulidade das massas. Em conseqüência, não só incentivou os vigários das paróquias a promoverem romarias,k mas, ele pessoalmente organizou uma.

A comercialização e a traficância da devoção à Senhora Aparecida tornaram-se rendosas, além de todas as estimativas, que o bispo de São Paulo não admitiu se tornasse ela paróquia da Diocese de Taubaté.

Com efeito, em junho de 1908, o papa Pio X desmembrou da Diocese de São Paulo, que abrangia todo o território do Estado, as dioceses de Botucatu, Campinas, São Carlos, Ribeirão Preto e Taubaté. Esta incluía todo o Norte do Estado de São Paulo, desde o Município de Jacareí, inclusive, até o limite do Estado Fluminense, à exceção de Aparecida do Norte que , apesar de encravada bem no centro do bispado de Taubaté, continuava pertencendo à jurisdição eclesiástica do arcebispado de São Paulo. Ocorreu esta anomalia escandalosa como resultado da ganância do arcebispo, ávido de se locupletar com as fortunas continuamente depositadas nos cofres da Senhora Aparecida.

Em 1931, conforme já referimos, vieram sua proclamação e coroação como padroeira e rainha do Brasil, em execução de uma astúcia política.

Antes, o padroeiro do Brasil era São Pedro de Alcântara, que por haver sido membro de ilustre e principesca família espanhola, durante o domínio da Espanha sobre o Reino de Portugal, obtivera de Roma esse "padroado".

Os tempos eram outros e o povo brasileiro não se tornara fã do frade espanhol. Então, os ordinários brasileiros decidiram aposentá-lo e arranjar do papa um outro padroeiro.

Afora o prestígio popular, o candidato, por certo, precisaria satisfazer injunções políticas e ter a sua Meca localizada onde houvesse maior concentração demográfica.

A paraense Senhora de Nazaré, a capixaba Senhora da Penha e o baiano Senhor do Bomfim, se bem que prestigiados popularmente em suas regiões, careciam satisfazer as outras condições.

Cumprindo-as todas, a Senhora Aparecida foi a eleita.

Mais recentemente, em 1958, o papa Pio XII criou a Arquidiocese de Aparecida, com o território da paróquia do mesmo nome desmembrando da Arquidiocese de São Paulo e de outras paróquias retirando da Diocese de Taubaté.

Em ritmo acelerado, prosseguem as obras de construção da nova basílica no sopé do Morro, antigamente cognominado dos Coqueiros.

Na falcatrua da Senhora Aparecida há a lenda de sua mudança "invisível" de capela em Ponte Alta para a cumiada da colina. Por isso mesmo é que foi erigido o templo no alto. A crer-se nas informações clericais, essa imagem saiu do lugar escolhido por ela própria, apenas duas vezes: - 0 quando de sua coroação no Rio de Janeiro e, em 14 de julho de 1945, quando, em São Paulo, esteve numa manifestação político-católica. Efetivamente, se os padres acreditassem no "milagre" de haver ela própria escolhido o seu trono no alto da colina, como pregam, a nova basílica seria construída lá encima mesmo. Se a estão construindo embaixo, atestam sua descrença daquele "fato". Outra demonstração de sua impostura!

Os padres redentoristas, hoje em dia, por considerarem antiquado o método, não se utilizam tanto das missões populares inculcadas pelo seu fundador nos estatutos da congregação. Prevalecem-se de meios mecânicos de divulgação como o jornal e o rádio. A sua emissora é potente em alcance e seria capaz de conservar o povo brasileiro na masmorra espiritual de suas superstições se não estivesse abrindo os olhos.

Já rareiam os fanáticos que chegam à Aparecida e pedem às oficinas de consertos de rádio que lacrem seus receptores na "estação de Nossa Senhora".

Aliás, outro sintoma desfavorável para os padres é o decréscimo do número de peregrinos em proporção do aumento populacional do País e da propaganda imensa, desfraldada até com larga distribuição de imagens fac-símiles. Inclusive, ainda não conseguiram fixar uma data para a celebração do dia da padroeira em que as multidões acorressem como desejam os reverendos. Sem o êxito desejado, já mudaram a data por várias vezes.

Não obstante todas as promoções em torno da divulgação dos "fatos" relacionados com a Aparecida, das demonstrações de fé na mesma, das romarias, de suas imensas riquezas... Não obstante os padres afirmarem – da boca p'ra fora! – que crêem na aparição prodigiosa da Senhora Aparecida, até hoje o Vaticano não se pronunciou a respeito.

Desafio a qualquer padre da Aparecida a que me apresente um documento do pontífice romano pelo qual haja se pronunciado sobre a autenticidade dos "acontecimentos prodigiosos" que divulgam entre o povo.

Eles não aceitam o desafio porque nem o papa crê nesse "prodígio". Bem ao contrário! Ele sabe que tudo é falcatrua. E falcatrua tão mal engendrada que nem é capaz de forjar documentos, tática de sua índole.



as pessoas fanaticamente narcotizadas pela idolatria não querem enxergar e continuam devotas da Aparecida.

A fim de dar aos padres reptados uma colher de chá de malva, que é clamante, apresento-lhes o parecer do monge beneditino, Estevão Beteencourt: "As autoridades eclesiásticas não se empenham por definir a autenticidade de tais portentos, nem mesmo a dos episódios concernentes à aparição da Senhora Imaculada no Porto de Itaguassu em 1717... A santa igreja, de modo nenhum, entende fazer de tais relatos matéria de fé... (Pergunte e Responderemos – 71/1963, qu. 5).

Católico! Não continue enganado! Use sua cabeça para raciocinar e não vá mais no conto do vigário! O próprio monge Estevão Bettencourt declara que aquilo tudo não é "matéria de fé". Ele não crê! Nem o papa e nem os padres prestam fé aos seus relatos sobre a Senhora Aparecida!

O melhor processo criado pelo inferno para enganar os inadvertidos, anestesiar a consciência do pecador e confundir a pureza límpida do Evangelho foi a dos "prodígios miraculosos".

O milagre autêntico só pode ser realizado pelo poder de Deus, pois se trata de um fenômeno que se dá além ou acima das leis da natureza, mudando o seu curso normal num caso particular.

Jesus ao praticar muitos milagres tinha em mira patentear a Sua Divindade. Nicodemos mesmo reconheceu-a por isso (João 3:2).

O cristão aceita o milagre; porém, dentro das normas da Bíblia, a sua Única e Exclusiva Regra de Fé e Prática.

Portanto, todo o prodígio contrário às normas e aos ensinamentos da Revelação Divina contida na Bíblia, não procede de Deus. Com efeito, Deus ameaça com terríveis castigos aqueles que acrescentarem ou retirarem dela qualquer coisa (Apoc. 22:18 e 19). Ninguém tem o direito de acrescentar nada à Palavra de Deus e quem o fizer é mentiroso (Prov. 30:6).

Em matéria religiosa, tudo o que estiver fora da Bíblia é um acervo de mentiras.

Satanás tem muito interesse em perverter as almas, apresentando-lhes doutrinas espúrias, contrárias à Revelação de Deus. Os seus sequases andam soltos, fazendo prodígios até em Nome de Deus!

Relativamente a estes é que Jesus advertiu: "Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade." (Mateus 7:22 E 23)

Esses prodígios são iniqüidades!!! Mesmo feitos em Nome de Deus, mas contra a Sua Santíssima Vontade revelada na Bíblia!

É uma iniqüidade o que o clero pratica no Brasil, ludibriando o povo!

A Bíblia é categórica em proclamar: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem," (I Timóteo 2:5)

A Bíblia é peremptória ao proclamar: "De tanto melhor concerto Jesus foi feito fiador... Portanto, pode também salvar  perfeitamente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles." (Hebreus 7:22 a 25)

A Bíblia, repito, é explícita em anunciar: "... se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E Ele é a propiciação pelos nossos pecados..." (I João 2:1 e 2).

Todo o Novo Testamento revela a Total-Suficiência de Jesus Cristo, como Salvador, Mediador e Advogado.

Enganaram-se muitos evangélicos ao supor que o romanismo com seu Concílio Ecumênico Vaticano II estaria disposto a reformar suas doutrinas nefastas, aproximando-se da Palavra de Deus e aceitando Jesus como Único e Todo-Suficiente Salvador, Mediador, Intercessor e Advogado.

O romanismo, porém, confirmou os seus velhos dogmas, contrários à Bíblia, e engendrou outros...

Negando ao Nosso Bendito Salvador a exclusividade restrita e conseqüente de todos aqueles atributos, em discrepância absurda da Bíblia, exalta Maria como Advogada, Auxiliadora, Protetora, Medianeira... (Constituição Dogmática "Lumen Gentium", (§ 62), o mais importante documento do Vaticano II, promulgado em 21 de novembro de 1964), aberrando dos ensinamentos claros de Deus.

Engajada nesse mesmo torvelinho de heresias está a Senhora Aparecida sobre quem o cardeal Vasconcelos Mota, arcebispo de sua arquidiocese, escreveu, em 1º de janeiro de 1967, para comemorar o 250º aniversário da falcatrua, uma carta pastoral, classificada pelo chaleirismo do órgão católico: "O São Paulo" (22 de janeiro de 1967), como "um tesouro de magistério".

Nesse "tesouro de magistério" – magistério do inferno porque absolutamente contrário à Revelação Divina e, ignominiosamente, depreciador de Jesus Cristo! – nesse "tesouro de magistério", repito, falando da Senhora Aparecida, como Medianeira, Advogada e Intercessora, saiu-se o cardeal aparicipolitano com esta heresia blasfêmia: "Ora, intercedendo por nós, embora pecadores, a maior santidade, o maior nome e a maior dignidade (refere-se à Senhora Aparecida, isto é, à sua Padroeira), como poderá resistir a Justiça Divina ou negar a Sua Misericórdia a uma tão forte, suave e poderosa intercessão? Intercessão é o meio entre dois extremos; para ser poderosa e eficaz, há de tocar a ambos: Deus, a quem intercede, e os pecadores, por quem intercede. E a Senhora posta entre Deus e os pecadores, quão chegada é a um e a outro extremo? É tão chegada a Deus, que só lhe falta ser Deus; é tão chegada aos pecadores que só lhe falta o pecado".

Confrontem-se essas expressões pos-conciliares com a doutrina de Deus demonstrada nos versículos bíblicos acima citados (Apoc. 22:18 e 19; Prov. 30:6; I Timóteo 2:5; Hebreus 7:22 a 25; I João 2:1 e 2). São incompatíveis!

Torna-se evidente que os "milagres" da Aparecida não procedem do poder de Deus porque não são consentâneos com Sua Vontade expressa em Sua Revelação, a Bíblia Sagrada.

As afirmações que não encontram evidência na Bíblia procedem, sim, do inferno para perverter as almas! Constituem-se na marca da apostasia!!!

Os seus pregoeiros e divulgadores se aliam com os falsos profetas referidos por Jesus Cristo (Mateus 24:24).

A religião dos crendeiros aparicidanos consiste em fazer promessas e esperar milagres.

Anestesiados pelas mentiras ridículas com que os padres ludibriam, por qualquer pretexto, fazem seus votos à santa pescada em Itaguassu.

A excêntrica "sala de milagres" revela como são entorpecidos na prática de uma religião de fábulas e embustes.

O devoto faz a sua promessinha de mandar uma fotografia para ser exposta na "sala de milagres", mas, ao mesmo tempo, coloca na pereba a pomada que o "doutor" receitou. Quando sara, foi milagre da Aparecida. Se não melhora, o médico é que não presta!

A moça se apavora com a possibilidade de ficar solteira e embarca, para se livrar dessa conjuntura, no primeiro bonde que aparece; e manda as tranças dos seus cabelos, como ex-votos, para serem dependuradas na "sala dos milagres".

Um time de futebol sagra-se campeão de qualquer torneio, os seus jogadores vão em romaria, levar à santa aparecida, as esmolas de promessa.

No concurso de miss-Brasil, em 1956, ouvi pelo rádio o General Profírio da Paz, devotíssimo aparicidano, invocar as bênçãos da Senhora Aparecida em favor das beldades semi-nual.

Durante três anos freqüentei assiduamente a basílica e jamais vi um milagre...

Milagre, milagre mesmo, isto é, ressuscitar um morto sepultado, como Lázaro, dar vista a um cego de nascimento, fazer aparecer um braço no lugar do amputado, colocar um pulmão novo no lugar do extraído... ela nunca fez!

A Senhora Aparecida é tão incapaz em matéria de milagre que é uma coitada! Garnato que, se cair do seu nicho, espatifar-se-á no chão!!!

A sua cidade está cheia de aleijados, estropiados e cegos a mendigar esmolas pelas ruas. Se o padres abastados de ouro e dinheiro não os socorre porque são avarentos, a Senhora Aparecida, de sua parte, nem lhes dá atenção aos gemidos.

Ela é tão coitada que não tem poder nem de retirar as lombrigas das crianças dos seus devotos. Por isso, a sua emissora faz propaganda de vemífugos.

Frusta-se o diabético que se socorreu de sua valia... Os padres da basílica, então, reconhecem-na tão fraquinha que, por meio do seu jornal, lhe recomenda o "copo medicinal".

Reconhecem-na tão ineficiente que, aos devotos alcoólatras, aconselham produtos farmacêuticos.

O "Santuário de Aparecida", órgão "oficial da basílica nacional de N. Senhora da Aparecida," desapontou-se tanto com a impotência da incomparável milagrenta que, a par da propaganda de produtos farmacêuticos, veiculada em suas poucas e desengonçadas páginas, abriu um "Consultório de Medicina Caseira", sob a responsabilidade do Frei Esculápio.

Ainda mais desapontados devem estar os seus devotos com a recentíssima demonstração de impotência da "incomparável senhora" verificada na oportunidade da fuga do urso "Negrito" de sua jaula.

Os supersticiosos cismam com o dia 13 e pior ainda quando cai na sexta-feira. Para aumento do medo deles o fato ocorreu no último dia 13 de setembro, sexta-feira. Durante 3 horas o urso "Negrito", foragido das grades, roncou pelas ruas centrais da "capital marina" do Brasil, levando o pânico às autoridades. E porque ninguém confia mesmo na "santa" Cidoca, apelou-se para o Corpo de Bombeiros de São Paulo, convocaram-se os elementos da Força Pública sediados em Taubaté e mobilizaram-se os recursos da Escola de Especialistas de Aeronáutica de Guaratinguetá. Quando se conjecturava lançar bombas de gás lacrimogênio para apanhar a fera, um domador entrou em cena e encurralou-o. A população ficou aliviada do susto, enquanto a padroeira foi desmoralizada com as manchetes de alguns jornais: "Diabo esteve à solta 3 horas em Aparecida do Norte".

A santa aparecida no Porto de Itaguassu, em 13 de outubro de 1717, foi um estratagema do falsário e ambicioso padre José Alves Vilela. A sua trapaça, porém, foi tão mal feita que o clero, nesse legado de abusões, não encontrou ainda elementos para transformar a fraude em matéria de fé. Até mesmo para esconder a estátua disforme, cobrem-na, de alto a baixo, com um manto azul, preso com a coroa de ouro, o que lhe dá o formato de um triângulo.

Apesar de tudo, porém, vão os padres enganando o povo credeiro.

A atitude favorável a essa devoção, por parte do clero visa exclusivamente a exploração comercial dos supersticiosos.

 O monge beneditino, Estevão Bettencourt, sócio dessa empresa de especulação da credulidade pública, afirma que "a bem da verdade, deve-se notar que tal atitude favorável é independente de qualquer pronunciamento da autoridade eclesiástica sobre a genuinidade dos prodígios que se narram em torno da Virgem e do santuário de Aparecida" (Pergunte e Responderemos – 71/1963, qu. 5).

"A bem da verdade..." Leia de novo as declarações do monge Bettencourt!

Que coisa!!! Os reverendos proclamam tanta a eficácia da devoção à virgem aparecida, divulgam os seus "milagres" e expõem, em sala adequada, tantos ex-votos e não podem sair desta: Nem esses "milagres" merecem qualquer pronunciamento oficial sobre a sua genuinidade...

É mesmo uma trapaça essa aparecida!

Desde menino, ouvi muitas vezes o milagre da libertação de um escravo na hora de ser, preso ao tronco, retalhado com chicote em estifo de sua fuga.

Foi mentira! Isso não aconteceu.

Se quem nega a veracidade desse fato, fosse um evangélico, longo sofreria insultos dos carolas fanáticos. Mas, quem diz ser isso uma mentira, uma lenda fantasiosa é o devoto Fred Jorge, em seu livro: "Aparição e Milagres de N. S. Aparecida" (Editora Prelúdio Ltda. – São Paulo – 1954 – pág. 20), que recebeu o "Imprimatur" do cônego J. Lafayette (hoje bispo auxiliar na Capital paulista), por delegação do cardeal e sob a chancela da cúria metropolitana de São Paulo.

Esse mesmo livro, sacramentado, indulgenciado e "águabentado", por um solene "Imprimatur" do ordinário paulista, diz que "para enumerar todas as graças concedidas seria preciso milhares de páginas e muitos volumes..." Propõe-se Fred Jorge colher alguns dentre aquela quantidade enorme, a fim de apresenta-los aos leitores. Contudo, por falta de autenticidade e seriedade nesses tantos, apresenta, uns poucos apenas, esclarecendo a sua necessidade de usar de fantasia (Pág. 22).

Teve razão aquele padre da basílica que, em princípios do ano de 1961 me disse, referindo-se à Aparecida: "Ela não tem valor algum. Nós gostamos dela porque nos traz muito dinheiro".





LIVRO: A SENHORA APARECIDA – OUTRO CONTO DO VIGÁRIO AUTOR: EX-PADRE CATÓLICO ROMANO ANÍBAL PEREIRA DOS REIS

APÊNDICE: Deixei definitivamente o sacerdócio romanista no dia 12 de maio de 1965, depois de exercê-lo durante quinze anos. Prestei-lhe, nesse período, larga folha de serviços.

Em minha biografia: " Um Padre Liberto da Escravidão do Papa" relaciono farta documentação a fim de demonstrar meu devotamento e integridade moral como padre.

Deixei a batina por uma única razão. É que me converti a Jesus Cristo, aceitando-O como Único e Todo-Suficiente Salvador. Em resultado, decidi pautar minha vida, exclusivamente, pela Vontade de Deus, exarada em Sua Bíblia.

Com crente em Jesus Cristo – é evidente! – não poderia permanecer no labirinto das superstições católicas, incompatíveis com a Bíblia.

Se até o último dia que servi à seita do papa fui sempre considerado um sacerdote exemplar, recebendo constantes elogios, não aconteceu o mesmo depois de a haver abandonado.

Os vassalos de Roma desencadearam sobre mim infernal perseguição, sobretudo pelo seu método comum, isto é, a calúnia, a aleivosia e o achincalhe.

Poderão mobilizar todas as suas hostes satânicas que não me arredarão do propósito de continuar, Bíblia em punho, por todo o Brasil, proclamando Cristo, a Única Esperança.

Ao invés, suas diatribes mais me estimulam...

Mais me enchem de gozo, consoante as palavras do meu, Bendito Salvador: "Bem- aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos porque é grade o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós". Mateus 5:11 e 12:26  



DR. ANÍBAL PEREIRA DOS REIS

(Edições " CAMINHOS DE DAMASCO" – 1968 – 2ª EDIÇÃO)
 



Todas as citações bíblicas são da ACF (Almeida Corrigida Fiel, da SBTB). As ACF e ARC (ARC idealmente até 1894, no máximo até a edição IBB-1948, não a SBB-1995) são as únicas Bíblias impressas que o crente deve usar, pois são boas herdeiras da Bíblia da Reforma (Almeida 1681/1753), fielmente traduzida somente da Palavra de Deus infalivelmente preservada (e finalmente impressa, na Reforma, como o Textus Receptus).




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