Cura Interior: Iluminação ou Ilusão?





Martin & Deidre Bobgan





            Por toda a América, os pais estão recebendo telefonemas e correspondência, que os atiram num pesadelo de acusações de abuso e incesto. Não são os pais de filhos pequenos ou adolescentes. São os pais de filhos adultos, os quais, durante toda a sua vida, jamais haviam tido qualquer recordação de terem sido sexualmente molestados pelo pai ou pela mãe.

            Agora, com histórias semelhantemente bizarras, eles estão chocando os seus pais. Esses filhos crescidos, (em geral filhas) estão agora se lembrando, com detalhes minuciosos, de um dos pais abusando deles. Onde eles conseguiram essas idéias? De onde poderiam provir tão sórdidas memórias? O que iria trazê-las à superfície? A cura interior e outras formas de terapia regressiva se escondem por trás desse rápido surgimento de histórias familiares de horror.

            No princípio, os pais ficam chocados. Eles estão sendo acusados de exploração sexual, as quais eles garantem jamais terem sequer pensado em praticar. Mas, quando eles tentam conversar com os filhos ou filhas, suas palavras caem em ouvidos moucos.  São acusados e condenados sem julgamento algum, tudo baseado em supostas memórias descobertas através da cura interior. Agora eles estão impotentes no que se refere ao bem estar dos seus filhos adultos, e tais pais nada têm a ver com essas memórias.

            Com a mídia acentuando e exagerando o número de mulheres que foram molestadas, quase cada uma que grita “incesto” logo é acreditada além de qualquer dúvida. E por que iria alguém duvidar, se alguma mulher adulta se “recordar” de uma lembrança oculta em seu inconsciente? Além de tudo, a memória não é como uma fita K-7 ou um computador, que registra fielmente e retém cada evento em determinada câmara da memória?  Não são confiáveis essas técnicas que possibilitam uma pessoa a recordar fielmente os eventos passados? Ou existem alguns problemas com tais admissões?




A mente é um computador?


            Conquanto muitos escritores da psicologia pop continuem comparando a mente humana a uma fita K-7 ou a um computador, tais analogias são fracas e mal conduzidas. O Dr. John Searle em sua Preleção Reith - “Mind, Brain and Science” (Mente Cérebro e Ciência), explicou:

            “Porque ainda não entendemos muito bem o cérebro, somos muitas vezes tentados a usar a última tecnologia como modelo para tentar entendê-lo.

            Em minha infância, sempre pensávamos ter certeza de que o cérebro era um aparelho de escuta telefônica (o que mais poderia ele ser?). E eu me divertia ao ver que Sherrington, o grande neurocientista britânico, pensar que o cérebro agia como um sistema telegráfico. Freud sempre o comparava a um sistema hidráulico e eletromagnético, enquanto Leibniz o comparava a um moinho; e agora, obviamente, ele é comparado a um computador digital...

            Provavelmente, o computador, como uma metáfora para o cérebro, não é melhor nem pior do que as metáforas mais antigas. Aprendemos tanto sobre o cérebro para dizer que ele é um computador, do mesmo modo como o fizemos, quando dizíamos que ele era um aparelho telefônico, um sistema telegráfico, uma bomba d’água, ou uma máquina a vapor”  
(John Searle, The 1984 Reith Lecture, London: British Broadcast Corp. 1984, pp. 44, 55, 56).

           
Aqui Searle está chegando à conclusão de que o cérebro não é uma peça mecânica da tecnologia.

            A médica pesquisadora, Dra. Nancy Andreasen, em seu livro “The Broken Brain” (O Cérebro Partido), declara que “não existe qualquer modelo ou metáfora exata para descrever como [o cérebro] trabalha”. Ela conclui: “O cérebro humano é, sem dúvida, por complexo demais para ser resumido a uma simples metáfora”. (“The Broken Brain”, New York: Harper & Row, 1984, p. 90).

            Pesquisas atuais demonstram que  a memória do computador e a memória biológica são significativamente diferentes. Em seu livro “Remembering and Forgetting: Inquiries into the Nature of Memory”, Edmund Bolles se refere ao cérebro humano como a “mais complicada estrutura no desconhecido universo” (Edmund Bolles R & F, New York: Walker & Co., 1988, p. 139)). Ele diz:

            “Durante alguns milhares de anos, as pessoas acreditaram que a lembrança de informações passadas era arquivada em alguma parte da mente. As metáforas da memória sempre foram metáforas de armazenagem. Preservamos imagens de cera; podemos esculpi-las na pedra; escrevemos as memórias com lápis, em papel; arquivamos memórias longínquas; temos memórias fotográficas; retemos fatos tão firmemente que eles parecem estar presos numa armadilha de aço. Cada uma dessas memórias pressupõe um armazém da memória, onde o passado permanece preservado, num sótão, como as lembranças da infância. Este livro registra uma revolução que reverteu a visão sobre a memória. A lembrança é um processo criativo, construtivo. Não existe armazenagem de informação sobre o passado, em parte alguma do nosso cérebro” (Ibid, p. 11).

            Ele prossegue, dizendo:

            “As memórias do computador e as humanas são tão diferentes como a vida e a iluminação”  (Ibid).




A Memória é Confiável?


            Ao contrário do computador, a memória não armazena coisa alguma que nela penetre. Antes de tudo, a memória oscila entre uma multidão de estímulos que nela penetram durante um evento real.  Depois, com o tempo, eventos mais recentes, e até mesmo recordações mais recentes, vão colorindo e alterando as memórias. Durante o processo criativo de recordar, memórias incompletas de eventos podem ser completadas com detalhes imaginários. E uma curiosa quantidade de informações é simplesmente esquecida - apagada - não apenas guardada ao longe, em alguma caverna profunda da memória. Como descreve tão bem a pesquisadora Carol Travis:

            “A memória, numa palavra, é desprezível. Na pior das hipóteses, ela é uma traidora e na melhor, uma criadora de casos. Ela nos oferece vívidas lembranças de eventos, que jamais teriam acontecido, enquanto obscurece críticos detalhes  de eventos que aconteceram” (Carol Travis, “The Freedom to Change”.  Prime Time. Outubro 1990. p. 28).

            Sim, as memórias podem até mesmo criar, não a partir de eventos verdadeiros, mas através do implante de eventos imaginados na mente. De fato, é possível que memórias implantadas  ou impostas se tornem ainda mais vívidas do que eventos verdadeiros do passado.

Sob determinadas condições, a mente de uma pessoa se torna aberta a sugestões, de tal maneira que memórias ilusórias podem ser recebidas, cridas e lembradas como memórias legítimas. A hipnose, a imaginação conduzida e a cura interior são muito capazes de fazer com que uma pessoa acumule falsas informações como sendo narrativas verídicas de eventos passados. Em estado de elevada sugestão, a memória de uma pessoa pode ser facilmente alterada e conduzida. Isso acontece sob a hipnose, através da imaginação dirigida, nas terapias de regressão da idade (como a terapia primária) e durante certas formas de cura interior.




O Poder da Sugestão


            Bernard Diamond, professor de Direito e professor clínico de Psiquiatria,  afirma que as pessoas hipnotizadas “gravam na memória fantasias e sugestões, deliberada ou involuntariamente comunicadas pelo hipnotizador”. Elas não apenas podem conseguir  novas memórias, conforme Diamond declarou, mas ele diz que “Após  a hipnose,  o paciente não pode mais diferenciar uma recordação verdadeira de uma fantasia ou detalhe sugerido”. Ele observou que as testemunhas nas cortes judiciais que foram antes hipnotizadas, “certamente desenvolvem uma certeza sobre suas memórias, as quais as testemunhas comuns raramente exibem... [e] ninguém, mesmo com muita experiência, pode verificar a exatidão de uma memória hipnoticamente conduzida.” Bernard Diamond, “Inherent problems in the Use of Pretrial Hypnosis on a Prospective Witness” - California Law Review, março 1980, pp. 314, 333-337; 348).

           
A certeza das pseudo memórias e a incerteza das memórias verdadeiras tornam questionáveis atividades como a hipnose e a cura interior, na melhor das hipóteses,  e na pior, perigosas. Pelo fato da memória ser tão duvidosa, os métodos de cura que se embasam nas lembranças, guardadas nas subterrâneas assim chamadas memórias ocultas, não somente abrem a possibilidade  à criatividade humana como ainda expõem a mente à possível sugestão demoníaca. Muito embora o hipnotizador ou agente da cura interior possa[tentar] proteger a pessoa que está recebendo o falso material, ele não consegue evitar a implantação da sugestão humana. Nem também pode evitar que sugestões demoníacas penetrem na mente vulnerável da pessoa que se encontra em estado de sugestão.

            Mesmo que existam pessoas na sala, orando em favor do paciente que está sendo submetido à hipnose ou à cura interior, ainda permanece a possibilidade de mentiras e fantasias serem gravadas na memória. Por esse motivo é que as atividades ocultistas são proibidas na Bíblia.  A hipnose e a memória dirigida são ambas ocultistas e a cura interior envolve a sugestão hipnótica, a memória dirigida e a visualização ocultista. O hipnotizador terapeuta Dr. Joe M. Persinger diz que o campo da hipnose “inclui a meditação, visualização, imaginação dirigida, relaxamento, biofeedback e técnicas respiratórias”  (Joe M. Persinger, citado por Sheri Graves: “Hypnosis Exploring Deep Levels of the Mind” - Santa Bárbara News-Press, 20/09/1989, p. D1).

            Com referência à relação entre a imaginação dirigida  e a hipnose, o Dr. Bressler, autoridade no campo  da hipnose e da imaginação, diz: “Acho que, simplesmente, ambas são a mesma coisa”. Ele também diz: “A imaginação está no âmago de toda mágica”.  (David Bressler, “The Inner Adviser Technique: The Healer Within” - InfoMedix tape, Garden Grove, CA, 1983).

           
John Weldon e Zola Lewitt dizem: “É de se esperar que a maioria, senão todos os que estão no ocultismo, provavelmente irão sofrer algum dano psicológico ou espiritual.” (John Weldon e Zola Lewitt, “Psychic Healing”, Chicago; Moody Press, 1982, p. 195).  



Realidade ou Ilusão?


           
Os que praticam a cura interior não deveriam ficar surpresos  diante da possibilidade de alterar ou forçar a memória, porque existem ocasiões nas quais, propositadamente, eles tentam substituir as memórias más por memórias boas. Eles fazem isto usando a visualização e a imaginação dirigida. De fato, uma das formas aparentemente atraentes da cura interior é ver Jesus sofrendo numa dolorosa cena do passado. A cura interior ajuda alguém a recriar a memória, ao ver Jesus dizer ou fazer coisas que vão fazer o paciente se sentir melhor a respeito da situação. Por exemplo, no caso de um homem, cujo pai o tenha negligenciado quando ele ainda era um garoto. Através do encorajamento verbal, ele iria regressar à infância e iria visualizar Jesus apanhando a bola e elogiando-o por ter acertado a jogada (?). Alguns agentes da cura interior levam as pessoas de volta ao útero materno, conduzindo-as a um renascimento, através da memória dirigida.  Nesse caso, os agentes da cura interior deveriam reconhecer o perigo do involuntário aumento ou gravação das memórias através de palavras ou ações, que podem significar uma coisa para o agente da cura interior, mas podem comunicar algo mais ao paciente que se encontra altamente vulnerável.

            É quase provável que as pessoas que se recordam de abuso sexual e incesto através de uma cura interior, estão relembrando uma ilusão ou distorção da realidade, uma destruição sugestiva acidentalmente ali colocada pelo agente da cura interior, ou criada através de uma combinação de estímulo, tal como num pesadelo, ou, ainda pior, implantado por uma influência demoníaca. Mesmo assim, elas não têm a menor dúvida sobre a sua recém descoberta memória guardada. De fato, a suposta memória tem a marca de uma lembrança hipnoticamente gravada, em vez de uma realidade distante. E quem poderá ou irá revelar-lhes a verdade? Provavelmente, não a sua igreja nem outros cristãos, caso estes tenham sido favoráveis ou ignorantes da cura interior.




A Trágica Influência da Cura Interior


            Muitos cristãos têm sido influenciados por certos autores de bestsellers e agentes da cura interior, como John e Paula Sandford, Rita Bennett e David Seamands. Infelizmente, esses cristãos acreditam em declarações como as de Sandford:

            “A atuação da graça não pode ser mantida em algumas pessoas sem a cura interior do seu passado.  O cuidado de Deus não pode ser sentido sem uma profunda reprogramação interior de todos os maus condicionamentos que nelas foram colocados pelos pais, família, professores e pregadores da Igreja”  (David Seamands, “Healing for Damaged Emotions” - Victor Books, 1981, p. 85).

            Esses escritores “cristãos” inculcam falsas informações e encorajam crenças errôneas. Apesar da pesquisa do cérebro mostrar o contrário, eles ensinam que a mente é como um computador e que existe um reservatório inconsciente de memórias muito fortes, as quais influenciam altamente o pensamento e as atitudes das pessoas. E estão convencidos de que as memórias que elas expõem são exatas.

            O trágico exemplo de pessoas com memórias recentemente “apanhadas no buraco negro da ira, ressentimento, falta de perdão, acusações, separação e confusão” faz parte do quadro do dano operado pelos que, honestamente, acreditam estar ajudando as pessoas. As práticas da cura interior de regressão ao passado, escavando no inconsciente as memórias escondidas, invocando imagens, liberando fantasias e pesadelos e acreditadas mentiras, mais se assemelham ao mundo do ocultismo do que à obra do Espírito Santo [Aqui é desconsiderada a admoestação do apóstolo  Paulo, conforme Filipenses 3:13 e 4:8 “Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim,” (Fp 3:13 ACF) “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.” (Fp 4:8 ACF)].  Uma lembrança imaginária criada  sob um estado altamente sugestionável e quase hipnótico vai redundar numa cura imaginária. Também pode lançar as pessoas num pesadelo vivo.

            Certo dia, fomos contatados por uma senhora que nos perguntou se conhecíamos um psiquiatra cristão.  Meses antes, ela havia contado, entusiasticamente, que, junto com a filha, havia freqüentado um seminário de cura interior, tendo sido ambas curadas de tudo que nem mesmo conseguiam se lembrar que existisse. Agora, ela estava desesperada. Sua filha estava tentando lidar com todo tipo de sujeira que havia mentalizado durante a cura interior.

            As pessoas mais vulneráveis aos agentes da cura interior são as que estão num baixo degrau de escalada espiritual ou estão passando por dificuldades. Os agentes da cura interior induzem essas pessoas, com todo tipo de promessas diretas ou implícitas, à cura de emoções prejudiciais, à cura das raízes do passado, e tais promessas evitam o crescimento pessoal e a possibilidade da pessoa andar mais próxima de Deus (?). Eles circulam por congregações, como aves de rapina, esperando a oportunidade de cair sobre os que estão próximos da exaustão espiritual. Eles garantem às suas vítimas em perspectiva o sincero desejo de ajudá-las, mas acabam apunhalando-as com o uso de versos bíblicos isolados do contexto e de uma conversa aparentemente cristã.

            Contudo, logo que o seu jogo consegue alcançar a pessoa, o agente da cura interior logo começa a sua penetração parasitária.
E o relacionamento entre vítima e hóspede prossegue, enquanto o anfitrião continua a olhar para o agente da cura interior a fim de se sentir completamente bem, emocional e espiritualmente.         Entretanto, em vez de ser curado, existe uma possibilidade muito mais forte de que o recebedor da cura interior passe a viver numa base de mentira, no abismo infernal.

            A cura interior não se embasa na verdade. Ela se baseia em falsa memória, imaginação dirigida, fantasia, visualização e sugestão semelhantes à hipnose. Conquanto os agentes da cura interior possam invocar Jesus e recitar versos bíblicos na cura interior, ela não é bíblica. Jesus ensina em João 8:31-32: “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Oramos pelos que têm sido vítimas do abuso da cura interior, a fim de eles fiquem libertos [desse engodo], através da verdade que está em Jesus Cristo.






Martin & Deidre Bobgan, “Inner Healing: Illumination or Illusion?”

Traduzido por Mary Schultze, em 04/12/2008.



Todas as citações bíblicas são da ACF (Almeida Corrigida Fiel, da SBTB). As ACF e ARC (ARC idealmente até 1894, no máximo até a edição IBB-1948, não a SBB-1995) são as únicas Bíblias impressas que o crente deve usar, pois são boas herdeiras da Bíblia da Reforma (Almeida 1681/1753), fielmente traduzida somente da Palavra de Deus infalivelmente preservada (e finalmente impressa, na Reforma, como o Textus Receptus).



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