Dividindo a Mensagem em Essenciais e Não Essenciais



(David Cloud)

 



          No seu livro “Grace Awakening”, Chuck Swindoll diz: “Meu encorajamento a vocês, hoje, é que cada um de nós busque o que nos une com os outros, em vez de buscar as poucas coisas que nos separam... Houve um tempo em minha vida, no qual eu tinha respostas para todas as perguntas que ninguém estava me fazendo. Assumia uma posição tão rígida na vida que achava que precisava brigar por causa de um jota ou de um til. Isso quer dizer que eu não poderia listar todas as coisas pelas quais eu daria a vida. Quanto mais velho eu ficava, mais resumida, francamente,  ficou a lista.”(Grace Awakening, p. 189).

          Até mesmo os evangélicos mais conservadores, tais como Iain Murray, caem nesta armadilha. Condenando o Fundamentalismo na América, Murray declarou: “Em sua tendência de julgar estipulações não fundamentais à crença cristã, o fundamentalismo se inclinou em tornar as fronteiras de Cristo limitadas demais”  (Iain Murray, Evangelicalism Divided, p. 298).

          Esta é a filosofia que está se tornando operante entre os Batistas Independentes. No livro “Thinking Outside the Box”, Charles Keen diz: “Sou um dos que aprendem devagar, mas finalmente descobri que nem toda verdade tem o mesmo valor. Algumas verdades eu diferencio de outras e separo aquelas pelas quais daria a vida (ou pelo menos deveria dá-la). Com outras eu deveria me sentir desconfortável com a maneira pela qual elas são manuseadas pelos meus irmãos, mas ainda posso ter comunhão com eles, quer seja pessoal ou, em alguns casos, eclesiasticamente. Precisamos desenvolver algum ‘ecumenismo dentro dos parâmetros do fundamentalismo’... Precisamos decidir quem são os inimigos da cruz, para nos separarmos deles. Em seguida, decidiremos  quem são os amigos da graça, a fim de os tolerar. Não precisamos nos unir, mas precisamos de unidade.”  (p. 181).



O que a Bíblia diz

          Primeiro, esta filosofia é refutada pelo ensino de Cristo. Ela é refutada em Mateus 23:23, onde Cristo ensina que embora nem tudo na Bíblia seja da mesma importância, tudo tem alguma importância e nada deve ser desprezado ou negligenciado Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas”.  Isto é também refutado em Mateus 28:20, onde Cristo ensina que as igrejas devem ensinar aos crentes tudo que Ele havia mandado. [“Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.” (Mt 28:20 ACF)]

          Segundo, esta filosofia é refutada pelo exemplo e ensino de Paulo. Ele anunciou todo o conselho de Deus (Atos 20:27) [“Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus.” (At 20:27 ACF)]. Ele ensinou Timóteo a valorizar toda a doutrina e a não permitir que ensinassem outra doutrina (1Timóteo 1:3) [“Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina,” (1Tm 1:3 ACF)]. Ele também ensinou Timóteo a guardar todo o mandamento do Novo Testamento “sem mácula” (1Timóteo 6:13-14) [“13 ¶ Mando-te diante de Deus, que todas as coisas vivifica, e de Cristo Jesus, que diante de Pôncio Pilatos deu o testemunho de boa confissão, 14 Que guardes este mandamento sem mácula e repreensão, até à aparição de nosso Senhor Jesus Cristo;” (1Tm 6:13-14 ACF)]. As máculas significam coisas pequenas, as quais parecem insignificantes.

O contexto da instrução de Paulo na 1Timóteo 6:14 é de uma epístola que tem como tema a igreja (1 Timóteo 3:15). Nesta epístola, encontramos instruções como o modelo pastoral (1Timóteo 3); os diáconos (1 Timóteo 3); a restrição divina ao trabalho das mulheres na igreja (1 Timóteo 2); o amparo às viúvas (1 Timóteo 5) e a disciplina (1 Timóteo 5). Pois são estas exatamente as coisas consideradas de importância secundária, hoje em dia, na igreja.

Conquanto saibamos que as doutrinas bíblicas não têm [todas elas] a mesma importância (Exemplo: João 3:16é mais importante do que a 1 Coríntios 11:14-15) [“14 Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o homem ter cabelo crescido? 15 Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu.” (1Co 11:14-15 ACF)], cada ensino da Escritura tem sua importância e em parte nenhuma somos ensinados a desprezar coisa alguma que Deus tenha dito, nem mesmo por amor a uma unidade dos Batistas Independentes ou de Missões Mundiais e nem por qualquer outra razão.

Creio que Romanos 12:2 (Não sede conformados com este mundo) e 1 João 2:15-17 (Não ameis o mundo) são ensinos muito essenciais e estes ensinos condenam a filosofia contemporânea, a qual está se espalhando rapidamente entre as igrejas batistas independentes. O mesmo se aplica ao que a Palavra de Deus diz a respeito da música sacra, das vestes modestas, da eclesiologia, do arrependimento, da preservação da Escritura, ou de qualquer outra coisa.

Terceiro, Devemos entender que nem todas as heresias têm o mesmo peso destrutivo, porém todas devem ser refutadas. Uma heresia é um erro doutrinário. A palavra descreve a vontade própria, a qual caracteriza um pecado. Um “herege” é aquele que exerce a vontade própria sobre a Palavra de Deus, preferindo o erro à verdade. O erro pode ser tão sério como negar a divindade de Cristo ou tão banal como permitir que a mulher exerça autoridade sobre os homens.

Existem as “heresias de perdição” (2Pedro 2:1), as quais são heresias que afetam a salvação eterna. A “heresia de perdição” descrita por Pedro era a negação do Senhor Jesus Cristo. O apóstolo João também descreveu a doutrina de Cristo como sendo uma doutrina crucial (2João 9). Em outras passagens, vemos que as “heresias de perdição” estão especialmente relacionadas à Pessoa de Cristo, ao Evangelho e ao Espírito Santo; portanto, à Pessoa e natureza de Deus, inclusive a doutrina da Trindade (2Coríntios 11:4).

Existem também heresias menos destrutivas: 1 Coríntios 11:19-21: E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós. De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se”. Nesta passagem Paulo estava se referindo aos erros da Igreja de Corinto e, no imediato contexto, ele se refere à Ceia do Senhor.

          Que nem todas as heresias têm as mesmas consequências não significa  que algumas devam ser ignoradas. Todo vento de doutrina deve ser recusado (Efésios 4:14).

          David Nettleton refutou a filosofia neo-evangélica em sua mensagem “A Limited Message ou a Limited Fellowship”,a qual descreve suas experiências num ministério interdenominacional da juventude, nos anos 1950. Vejamos o excerto desta mensagem:

          “Esta mensagem, como muitas, nasceu de uma experiência. Pode ser que alguns outros venham a passar pela mesma experiência. Portanto, vou contar novamente a experiência que gerou esta mensagem.

          Cresci numa igreja presbiteriana. Fui salvo num colégio interdenominacional, no corpo estudantil, mas era dirigido por uma igreja dos Irmãos. Dali fui para um seminário que não era interdenominacional e, em seguida, para um Seminário Presbiteriano Unido. Entrei no pastorado batista apenas com o que trazia da leitura das Escrituras.

          Alguns anos mais tarde, fui conduzido a um movimento interdenominacional, onde me deram a liderança de um rally, num sábado à noite. Cooperei com qualquer um que não era evangélico, independentemente de suas associações. Fui aconselhado pelos principais líderes  do movimento a buscar os nomes dos modernistas de projeção para o meu comitê de aconselhamento. Não o fiz. Porém segui o conselho de mandar todos os convertidos às igrejas de sua preferência, as quais, em alguns casos, eu sabia que eram liberais.  Isto perturbou demais minha consciência, orei e refleti sobre o assunto.

        Outro problema conectado a este trabalho foi o meu fracasso em instruir os convertidos sobre o tipo de batismo cristão, que nas Escrituras é o primeiro teste de obediência. Senti que deveria fazê-lo, visto como Pedro e Paulo o fizeram. Mas, como poderia fazê-lo, quando no comitê do trabalho havia amigos íntimos que não acreditavam nisso?

          Por causa disso eu havia diluído minha mensagem e o meu ministério [omitindo] importantes verdades bíblicas, as quais eram chamadas “não essenciais”.

          No trabalho seguinte, não era conveniente falar da segurança eterna, na presença de obreiros cristãos, os quais odiavam até o nome desta doutrina. Desse modo, o ministério ficou reduzido ao evangelho, exatamente como se não existisse a Grande Comissão sobre batizar os convertidos e doutriná-los. Pelo menos eu havia encontrado um denominador comum e estava permanecendo nele. Porém, minha consciência não me dava sossego.

        Mais tarde foi que Atos 20:27 significou algo para mim. O grande apóstolo jamais havia permitido ser conduzido a coisa alguma que pudesse limitar a sua mensagem. Ele podia dizer de consciência limpa:Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos. Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus’. Por que será que muitos não podem dizer exatamente isto, nos dias de hoje? Em meu caso e no de muitos outros pode ser pelo desejo de ensinar a uma audiência maior e de trabalhar com um grupo maior de cristãos.

        Muitos têm se desviado da completa obediência por causa de um moto {*} aparentemente nobre, o qual tem sido aplicado ao trabalho cristão: ‘Nos essências, unidade; nos não essenciais, liberdade e em todas as coisas, caridade’ [Agostinho de Hipona]. {* Nota: “moto” é uma frase que se torna o principal objetivo, o lema da vida de uma pessoa. Esta a repete e defende muito frequentemente}

          Algumas coisas não são essenciais à salvação, porém são essenciais à obediência completa e Deus não deu permissão para o cristão escolher o que é essencial e o que não é essencial nas Escrituras. Nosso dever é “anunciar todo o conselho de Deus”,  fazendo isso onde quer que estejamos.

          Hoje em dia, estamos escolhendo entre duas alternativas: UMA MENSAGEM LIMITADA OU UMA COMUNHÃO LIMITADA. Se pregamos as verdades bíblicas, existem os lugares onde jamais seremos convidados a pregar novamente. Se damos as mãos às multidões [pregando o que esta deseja escutar], estaremos limitando a mensagem bíblica. Coloquem isto em mente! O batista fundamentalista é que está fazendo concessões! Pensem nisto e verão que é verdade. Acreditamos no batismo do crente. Acreditamos na separação. Pregamos a segurança da vida eterna. Acreditamos na iminente vinda de Cristo. Consideramos como ato de obediência reprovar a descrença nos círculos religiosos. Os saduceus e os fariseus devem ser rotulados. Mas, conforme a filosofia atual, devemos deixar de lado todas as coisas por amor a uma esfera mais ampla de serviço.

          O que é mais importante, obediência completa ou uma esfera mais ampla de serviço? Também não acredito muito que haja apenas duas alternativas. Nosso principal dever é obedecer a Deus em todas as coisas, em seguida permitir que Ele nos indique os locais de  serviço. Charles Haddon Spurgeon não viajava tanto como os homens [pregadores] de hoje, porém os seus sermões têm viajado muito mais longe do que os sermões desses homens”. (David Nettleton, “A Limited Message or a Limited Fellowship” - GARBC).

          A necessidade de pastorear e discipular o povo de Deus exige que o protejamos de “pequenos” comprometimentos e do erro dos “não essenciais”.

          “E ele [Cristo] é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Colossenses 1:18).

          É preferível errar por ficar do lado do excessivamente estrito e separado demais da transigência do batista independente, do que ser tolerante demais e não ficar suficientemente separado. 



“Dividing Truth into Essentials and Non-Essentials”, David Cloud

Traduzido por Mary Schultze, 23/10/2009.

www.maryschultze.com


 


 

Todas as citações bíblicas são da ACF (Almeida Corrigida Fiel, da SBTB). As ACF e ARC (ARC idealmente até 1894, no máximo até a edição IBB-1948, não a SBB-1995) são as únicas Bíblias impressas que o crente deve usar, pois são boas herdeiras da Bíblia da Reforma (Almeida 1681/1753), fielmente traduzida somente da Palavra de Deus infalivelmente preservada (e finalmente impressa, na Reforma, como o Textus Receptus).



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