O DEUS QUE TRABALHA

Rev. Leandro Antônio de Lima
Ministro Presbiteriano.  Diretor do "Seminário Reformado de Teologia e Missões" e professor de Teologia Sistemática
Guarapuava - PR






Uma maneira prática de ver o relacionamento entre doutrinas como a da soberania de Deus e a da responsabilidade humana é considerar a doutrina Bíblica da Providência Divina. A doutrina da Providência trata com a questão sobre como o mundo sobrevive, e em que direção caminha. Ela procura dar resposta para a pergunta sobre se há uma ordem por detrás de todos os acontecimentos, ou se tudo acontece de forma aleatória.

Vivemos num tempo em que, por um lado, as pessoas pensam que o acaso governa, ou, por outro, defendem uma espécie de fatalismo. A Bíblia não concorda com nenhuma destas crenças. Ela afirma o controle soberano de Deus sobre todas as coisas através de sua Providência. Estudar a doutrina da Providência nos mostra o quanto Deus é pessoal e está diretamente envolvido em tudo o que acontece neste mundo.

  O homem sempre teve muitas crenças interessantes sobre o curso que o mundo segue. Uma crença do século dezenove chamada “Deísmo” entendia que Deus havia criado o mundo, mas a partir de então, não atuava mais nele. Deus havia estabelecido leis fixas para todas as coisas, e então, o mundo simplesmente seguia o curso dessas leis, sem nenhuma interferência do Criador. Nessa visão, o mundo seria uma máquina que Deus acionou e que agora trabalha por conta própria. Por outro lado, como já dissemos, popularmente as pessoas acreditam na “sorte”, no “acaso”, na “fortuna” ou no “destino”. É como se o mundo e o destino de todos os homens estivesse nas mãos de alguma força impessoal e incompreensível.

 
O mundo não está nas mãos de uma força impessoal. O mundo está nas mãos de um Deus que trabalha. Quando os fariseus recriminaram Jesus por ter curado no Sábado, Jesus afirmou que o sétimo dia não significava o fim do trabalho divino. Jesus disse: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (João 5:17). Deus continua trabalhando no mundo. A isto chamamos de Providência. Uma boa definição de Providência pode ser: “O permanente exercício da energia divina, pelo qual o Criador preserva todas as Suas criaturas, opera em tudo que se passa no mundo e dirige todas as coisas para o seu determinado fim” 1 .

Nas Escrituras, podemos ver três formas como a Providência Divina se manifesta:
Preservação,
Concorrência e
Governo.




 

Deus preserva todas as coisas
 

  Deus não apenas criou o mundo como também o sustenta. Rigorosamente falando, o ato criador de Deus terminou no sexto dia. A partir daí iniciou-se a Providência Divina. O texto de Hebreus 1:1-3 diz que o mundo foi criado através de Jesus, e que é sustentado igualmente através dele “pela palavra do seu poder”. É este poder de Deus que sustenta diretamente o mundo. Um Deus que criasse todas as coisas e as entregasse à sua própria sorte não seria um Deus pessoal, mas distante, impessoal e despreocupado. A Escritura ensina que Deus se envolve com tudo aquilo que criou até nos mínimos detalhes. Veja que afirmação maravilhosa sobre a criação e a Providência de Deus está em Neemias 9.6: “Só tu és Senhor, tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora”. Esse também é o entendimento do salmista: “Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. Abres a tua mão e satisfazes de benevolência a todo ser vivente” (Salmo 145:15-16). Deus preserva e sustenta a todos os seres que criou. Quando Deus deixa de sustentá-los, eles morrem, conforme o salmista constata: “Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se ocultas o teu rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem, e voltam ao pó” (Salmo 104:27-29). O que mais se destaca neste texto é a partícula “se”, que revela a condição pela qual a natureza continua existindo. Tal é o controle preservador de Deus sobre sua criação que Jesus disse: “Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo vosso Pai celeste as sustenta” (Mateus 6:26); e acrescentou mais tarde: “Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mateus 10:29-30). Se Deus cuida até dos passarinhos, alimentando-os e sustentando-os durante toda a vida deles, se Deus sabe até o número de cabelos que temos na cabeça, então é porque seu envolvimento é total, desde as menores até as maiores coisas.

   Diante dessas coisas como alguém pode crer no acaso ou na sorte? A conclusão lógica do assunto discutido é que não existem coisas como “sorte”, “acaso”, ou “destino”. Ninguém tem sorte de estar vivo, está vivo pela Providência de Deus. Do mesmo modo imaginar um Deus que criou o mundo, mas o abandonou à sua própria sorte é algo absurdo, pois segundo a Bíblia, a Providência de Deus é a causa do mundo ainda existir. E veja quanta misericórdia há nisso, pois o mundo é rebelde contra Deus, não obstante, Deus o preserva, fazendo nascer o sol sobre “maus e bons”, e cair “chuvas sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Deus providencia alimento até para os filhotes dos corvos (Jó 38:41). Devemos louvar a Deus pela grandiosidade de sua obra providencial como faz o salmista: “Cantai ao Senhor com ações de graças; entoai louvores, ao som da harpa, ao nosso Deus, que cobre de nuvens os céus, prepara a chuva para a terra, faz brotar nos montes a erva e dá o alimento aos animais e aos filhos dos corvos, quando clamam” (Salmo 147:7-9).




 

Deus age em todas as coisas
 

   Uma outra forma de ver a Providência de Deus é através de sua operação imediata em todas as coisas que acontecem. Os teólogos têm chamado isso de Concorrência ou “Concursus”. “Concursus” se refere à junção de duas forças. Não significa necessariamente que sejam duas forças em pé de igualdade, mas, apenas que dois lados cooperam de alguma forma. Berkhof define concorrência ou “concursus” como “a cooperação do poder divino com todos os poderes subordinados, em harmonia com leis pré-estabelecidas de sua operação, fazendo-os agir, e agir precisamente como agem” 2 . Quando dizemos que Deus e o homem agem conjuntamente não estamos querendo dizer que é 50% para cada lado. A vontade de Deus é sempre superior à vontade humana. Este é um assunto difícil, porém, devemos ser honestos com o ensino da Palavra de Deus, mesmo que tenhamos dificuldades em entendê-lo. Por isso, acima de tudo, devemos manter uma atitude reverente para com o Senhor ao meditarmos nos textos que estão a seguir.

   Vejamos alguns exemplos bíblicos sobre Concursus. Já estudamos em lição anterior sobre o texto de Lucas 22:22, onde o decreto de Deus e a traição de Judas acontecem paralelamente. Deus determinou, mas Judas foi responsável por seu ato. O mesmo também foi visto no sermão de Pedro registrado em Atos 2, quando ele justificou que Jesus morreu “sendo entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus”, porém, quem havia realizado o ato infame foram os homens, conforme Pedro inequivocamente aponta: “Vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (Atos 2:22-23). Note que Jesus foi entregue porque Deus havia determinado que isto acontecesse, no entanto, o povo era o verdadeiro culpado da morte de Jesus. O povo gritou para que ele fosse crucificado, preferindo a libertação de Barrabás (Mateus 27:20-21). Esta mesma idéia repercute no capítulo 4 de Atos, quando a igreja ora ao Senhor: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (Atos 4:27-28). Está claro que a culpa pela morte de Jesus foi dos homens, porém, tudo o que aconteceu, seguiu a vontade e a soberania de Deus, conforme seu plano pré-estabelecido. O que os homens fizeram foi errado, pecaminoso, e eles certamente pagarão por isso, porém, ao fazerem aquilo, em última instância, fizeram o que Deus havia determinado. Isto é concorrência ou “concursus”.



 

  O “Concursus” e os Atos Bons 3
 

   Nunca conseguiremos deixar Deus de fora de qualquer coisa de nossas vidas. Precisamos nos lembrar que Paulo disse que “nEle vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17:28). Jamais o homem age de forma independente de Deus. Por isso, todas as ações boas, que nós crentes praticamos, são ações que Deus direcionou. Já vimos que segundo Filipenses 2:13 Deus opera em nós tanto o querer quanto o realizar. O que isso quer dizer é que se eu faço alguma boa ação o mérito é do Senhor. Quem realizou a obra fui eu, mas ela só foi possível, porque o Senhor me capacitou. É o que Paulo fala sobre seu próprio trabalho apostólico: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1 Coríntios 15:10). Paulo tinha consciência de duas coisas: a graça de Deus e seu trabalho árduo, mas acima de tudo sabia que tudo era pela graça.

  O interessante é que isto pode ser visto também nas ações boas dos homens não-regenerados. Eles também fazem coisas boas, não boas no sentido de aceitáveis para salvação, mas boas, porque podem ter resultados benéficos para as pessoas. Podemos ver pela Bíblia, que mesmo essas ações sofrem o “concursus”. Ciro, o rei da Pérsia, é um grande exemplo disso. Veja o que está escrito a seu respeito: “Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita (...). Eu irei adiante de ti, endireitarei os caminhos tortuosos, quebrarei as portas de bronze e despedaçarei as trancas de ferro” (Isaías 45:1-2). Deus está dizendo que age na vida de Ciro para o ajudar. Em seguida diz o motivo: “Por amor do meu servo Jacó e de Israel, meu escolhido, eu te chamei pelo teu nome e te pus o sobrenome, ainda que não me conheces” (Isaías 45:4). Deus usou Ciro por amor de seu povo, ainda que Ciro não conhecesse o Senhor. Ciro foi usado para que o povo pudesse voltar do cativeiro da Babilônia para sua própria terra. O imperador foi responsável pela ordem que permitia a volta do povo, e essa foi uma boa ação, mas, ele não fez isso pensando em agradar a Deus, na verdade, ele estava fazendo uma manobra política, porém, acima de tudo, estava cumprindo a vontade decretiva de Deus. Ciro agiu em busca de seus próprios interesses, mas acabou fazendo algo de bom para o povo, e nisso ele foi dirigido por Deus, que agiu na vida de Ciro.

  Todas as boas ações desse mundo sofrem a ação do “concursus” de Deus. Tudo o que acontece de bom, acontece porque duas coisas participaram: a vontade do homem e a vontade de Deus. Em sua soberania, Deus não anula a vontade do homem.




 

O “Concursus e os Atos Maus”
 

   Não é difícil ver a atuação de Deus nas atitudes boas dos homens, afinal de contas Deus é bom e fonte de todo bem. Mas e com relação às coisas más que acontecem? Uma das coisas mais difíceis nesta vida é conciliar a vontade soberana de Deus e os atos maus das pessoas. Uma forma de responder a questão é dizer simplesmente que Deus permite que as pessoas façam coisas más. Em parte esta resposta está certa. As atitudes más dos homens seriam permitidas por Deus embora ferissem sua vontade preceptiva. Mas como já estudamos, a vontade preceptiva é apenas um aspecto da vontade de Deus. Nunca poderemos nos esquecer que Ele também tem uma vontade decretiva. Como os atos maus dos homens se relacionam com os decretos de Deus?

Podemos ver na Bíblia alguns casos que nos mostram que mesmo os atos maus das pessoas não foram feitos independentemente de Deus. O “concursus” pode ser visto nessas atitudes também. Em sua vontade decretiva, Deus determinou tudo o que deve acontecer, inclusive os atos maus dos homens. Porém isso não faz de Deus o autor do pecado destes homens. Embora certas coisas ruins estejam decretadas, os homens as fazem livremente, e a culpa é somente deles, porque desejaram fazê-las.

  A história de José do Egito é novamente útil para entendermos isso. José era o filho preferido de Jacó e seus irmãos tinham ciúmes dele. Num certo dia, aproveitaram uma ocasião e venderam-no a alguns mercadores que iam para o Egito. Aquele foi um ato muito mau da parte dos irmãos. José enfrentou muitos problemas por causa disso, pois tornou-se um escravo no Egito, chegando até mesmo a parar na prisão. Porém o Senhor agiu na vida de José que acabou chegando ao cargo mais importante do Egito logo após o Faraó. Com isso, anos mais tarde José pôde ajudar sua família que passava dificuldades com a grande seca que se abateu sobre a terra. Quando se encontrou novamente com seus irmãos, José disse-lhes: “vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (Gênesis 50:20). Tal foi o entendimento de José daquela situação que até mesmo declarou: “Não fostes vós que me enviastes para cá, e, sim, Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa” (Gênesis 45:8). Vender José foi uma ação má dos irmãos, e eles eram responsáveis por aquela ação. Eles agiram segundo seus impulsos pecaminosos, porém, a Bíblia diz que, em última instância, Deus havia planejado tudo. Deus não foi o autor do pecado dos irmãos, mas agiu na vida deles, para que Seu propósito maior se cumprisse. Eles fizeram o que desejavam, pecaram e foram punidos, mas não deixaram de fazer também o que Deus desejava. Embora esta não seja uma coisa fácil de entender, precisa ser aceita pela fé. Deus quis que os irmãos vendessem José, mas, o pecado foi somente deles, pois ao agir daquela forma, não estavam obedecendo a uma ordem de Deus, e sim a sua própria vontade pessoal.

  Ainda mais difícil é entender como Deus atua nos atos maus dos próprios homens maus. Sempre imaginamos os irmãos de José como membros da Aliança, e por isso não os consideramos ímpios. Agora veja o que a Bíblia fala sobre o caso de Nabucodonozor, o ímpio rei da Babilônia. Esse rei invadiu Judá e cometeu atrocidades, porém, a Bíblia diz que Deus é quem o trouxe e determinou que fizesse aquilo (Jeremias 25:9-11). Nabucodonozor agiu conforme sua iniqüidade determinava, por causa da sua sede de conquistas, entretanto, Deus determinou que aquilo acontecesse, usando Babilônia, império de Nabucodonozor, segundo seus propósitos, como Ele próprio declara: “Tu, Babilônia, eras meu martelo e minhas armas de guerra; por meio de ti, despedacei nações e destruí reis; por meio de ti, despedacei o cavalo e o seu cavaleiro; despedacei o carro e o seu cocheiro; por meio de ti, despedacei o homem e a mulher, despedacei o velho e o moço, despedacei o jovem e a virgem; por meio de ti, despedacei o pastor e o seu rebanho, despedacei o lavrador e a sua junta de bois, despedacei governadores e vice-reis” (Jeremias 51:20-23). Note que Deus diz que ele havia feito toda aquela destruição. Porém, Babilônia pagaria, pois havia agido conforme ela própria desejava, pois Deus declara: “Pagarei, ante os vossos próprios olhos, à Babilônia e a todos os moradores da Caldéia toda a maldade que fizeram em Sião, diz o Senhor” (Jeremias 51:24). A culpa era da Babilônia, pois agiu conforme sua cobiça, entretanto, em última análise, agiu como Deus havia determinado. Não resta dúvidas, Deus usou Babilônia e Nabucodonosor, agindo na vida deles para que fizessem aquilo que era seu plano que acontecesse. Ao mesmo tempo, porém, Babilônia e seu imperador agiram conforme seus próprios desejos infames, e seriam castigados por Deus por causa disto. Isto é surpreendente.

  Falta-nos espaço para tratar de Jeroboão (1Reis 14:10; 15:27-30); de Roboão (1 Reis 12:13-15; 22-24); do rei da Assíria (Isaías 10:5-15); de Absalão (2 Samuel 16:20-23; 12:11-12; 17:14) e de tantos outros casos que demonstram o mesmo que aconteceu com Nabucodonozor. Em todos estes casos, os homens ímpios agiram conforme seus desejos pecaminosos e são culpados por isto, porém, ao agir daquela forma, estavam fazendo o que a vontade decretiva de Deus havia determinado.

  Tudo o que acontece nesse mundo, acontece debaixo do olhar e do comando eficaz de Deus, nada foge ao Seu controle, porém, tudo o que o homem faz, faz porque sua vontade deseja. O “concursus” nos ajuda a entender a maneira como Deus age neste mundo e também como os homens agem. Há uma concorrência entre os dois, porém, não uma junção de forças, como se o homem fizesse metade e Deus o resto. O fato é que Deus age no homem, levando-o a fazer a Vontade Suprema, mas sem ferir a responsabilidade pessoal do homem por cada ato seu, e sem ser o autor do pecado dos homens. No caso do pecado, todo ato pecaminoso ocorre por ação do homem. Porém é inegável que o pecado do homem esteja incluído no decreto permissivo de Deus.




 

Deus governa todas as coisas
 

   A perspectiva do governo de Deus é mais uma forma de ver sua Providência. Não quer dizer que seja algo diferente de preservação e concorrência, pois cada parte pode ser considerada como a Providência toda, porém, ao enfatizarmos a idéia de governo estamos nos referindo ao propósito final de Deus, ao qual o mundo está sendo conduzido.

  A Bíblia apresenta Deus como o Grande Rei que está assentado no trono e governa todas as coisas conforme sua vontade determina. O que seria do mundo se Deus não tivesse propósitos? Se ele simplesmente deixasse a “coisa rolar”, seguindo o livre curso das decisões dos homens? Que garantias haveria de que as promessas bíblicas se cumpririam? Como poderíamos saber que de alguma forma, o homem não sabotaria o plano divino? Toda expectativa de fé se torna muito efêmera se Deus não tem propósitos e poder para realizá-los.

   Deus tem propósitos. A Providência de Deus nos fala que Ele guia os eventos do mundo para um determinado fim. Esse fim é o “beneplácito de Sua vontade” (Efésios 1:5), é o seu supremo propósito para esse mundo que redunda em “louvor da Sua glória” (Efésios 1:12). Como já vimos, nada acontece por acaso. Não existe a sorte ou a fortuna. Nem mesmo o destino cego. Às vezes falamos: “hoje foi meu dia de sorte”, e nem percebemos o quanto é falsa essa afirmação. Deveríamos evitar falar essas coisas, pois ao afirmarmos isso, estamos dizendo que o acaso pendeu para o nosso lado e de alguma maneira inusitada, impensada e não-planejada nos favoreceu. Isso tende até mesmo a ser uma forma de idolatria, já que algo está sendo colocado no lugar de Deus. Esta atitude é muito parecida com a que teve o povo de Israel após ter sido tirado do Egito. Naquela ocasião fizeram bezerros de ouro para si e disseram: “São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Êxodo 32:4). Também fazemos isso quando, ao recebermos alguma bênção do Senhor, dizemos, “que sorte eu tive”.

   Imaginar que o destino cego é que guia todas as coisas não melhora as coisas. As vezes, as pessoas confundem a doutrina da soberania de Deus com o fatalismo. A religião islâmica assume uma espécie de fatalismo. O muçulmano quando se depara com um acontecimento imprevisto costuma dizer “maktub”, que significa “está escrito”. O fatalismo diz: “o que tiver que ser será”. Há uma grande diferença entre dizer que Deus dirige a história para seus propósitos e dizer que o destino a dirige. O destino não tem sentimentos nem vontade, ele é cego, surdo e mudo. Nosso Deus tem sentimentos e propósitos, ele fala, ouve e age. Não dizemos: “o que tiver que ser será”, dizemos: <o propósito de nosso Deus, Sua vontade boa, agradável e perfeita prevalecerá> (Romanos 12:2).

  Da mesma forma, não faz sentido a tendência moderna de que o homem é que determina o que deve acontecer. Muitos líderes religiosos falam em programas televisivos que Deus já liberou todas as Suas bênçãos para os homens na pessoa de Jesus, e que agora são as pessoas que precisam tomar posse da bênção que está à disposição delas, enquanto Deus permanece impassível somente esperando que os homens façam a obra dele. Alguns tele-evangelistas modernos dizem que quem faz a obra de Deus hoje somos nós. Na visão destes, a Providência já não é mais uma prerrogativa divina, passou a ser um atributo do homem.




  A despeito destas coisas, a doutrina da Providência é uma das mais belas doutrinas da Bíblia. Ela nos fala da maneira como Deus preserva e dirige este mundo para o cumprimento de seus objetivos. Fala de um Deus próximo, atuante, vivo, que se importa conosco, que está presente e age em cada detalhe da nossa vida. Nada é demasiado simples ou insignificante que não seja do interesse dEle. Nada acontece por acaso. Não existe sorte ou fortuna. Existe Deus e seus propósitos eternos. Um Deus que causa admiração, pois como diz Isaías, “Desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nEle espera” (Isaías 64:4).




 

  1 Louis Berkhof. Teologia Sistemática. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. p. 165.

 2 Louis Berkhof. Teologia Sistemática, p. 170 .

 3 Uma excelente exposição sobre o Concursus pode ser vista em H. C. Campos. O Ser de Deus e as Suas Obras – A Providência e a Sua Realização Histórica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 292-315.

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Fonte: http://www.etpc.com.br/revista/volume19artigo3.htm




 

As ACF (Almeida Corrigida Fiel, da SBTB) e ARC (ARC idealmente até 1894, no máximo até a edição IBB-1948, não a SBB-1995) são as únicas Bíblias impressas que o crente deve usar, pois são boas herdeiras da Bíblia da Reforma (Almeida 1681/1753), fielmente traduzida somente da Palavra de Deus infalivelmente preservada (e finalmente impressa, na Reforma, como o Textus Receptus).



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