Geisler
aborda o tema de forma bastante ampla, levando em consideração o lado bíblico e
também o lado social, dividindo em três pontos básicos sua argumentação. Sendo elas:
Ativismo, Pacifismo e Seletivismo. Faremos agora uma breve síntese do
pensamento de Geisler.
O argumento
do ativismo de que o cristão é obrigado, pelo seu dever de obedecer ao seu governo,
de participar de todas as guerras tem dois tipos diferentes de argumentos: o
bíblico e o filosófico ou social.
A. O Argumento Bíblico: “O Governo É Ordenado Por Deus”
As
Escrituras parecem ser enfáticas quanto a este aspecto. O governo é de Deus.
Seja no âmbito religioso, seja no âmbito civil, Deus é o Deus da ordem e não do
caos. O Novo Testamento confirma o conceito do Antigo Testamento, de que Deus
ordenou o governo. Jesus é citado dizendo que o homem deve dar, pois, “a
César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22:21), que a
autoridade civil foi dada por Deus foi ainda mais reconhecido por Jesus, diante
de Pilatos, quando disse: “Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima
não te tosse dada” (Jo 19:11). Tito é exortado a respeito dos cretenses: “Lembra-lhes
que se sujeitem aos que governam, às autoridades; sejam obedientes...” (Pe
2:13,14). A passagem mais extensa do Novo Testamento sobre o relacionamento
entre o cristão e o governo acha-se em Romanos 13:1-7. “Todo homem esteja
sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de
Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que
aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem
trarão sobre si mesmos condenação. Visto que a autoridade é ministro de
Deus para o teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem
motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar
o que pratica o mal.” (vs 1 e 2 e 4). Seguir-se-ia disto, segundo os
ativistas bíblicos, que a pessoa deve responder à chamada do seu governo para
ir à Guerra, porque Deus deu autoridade da espada às autoridades governantes.
B. O Argumento Filosófico: “O Governo é o Guardião do Homem”
O ativismo
não é apoiado meramente com os dados bíblicos. Um dos argumentos mais enfáticos
já escritos em prol desta posição veio da pena de Platão. O cenário é a prisão
onde Sócrates aguarda sua morte, tendo sido acusado de impiedade e sentenciado
a beber o cálice de veneno, Sócrates é conclamado a escapar de fugir de pena de
morte. Na resposta de Sócrates, cinco razoes são dadas para obedecer a um
governo injusto, mesmo até ao ponto da morte.
1- O Governo é o pai do Homem – a pessoa não deve desobedecer até mesmo a um
governo injusto. “Primeiro, porque ao desobedecer a ele, está desobedecendo aos
seus pais.” Com isto, Sócrates queria dizer que foi sob o patrocínio daquele
governo que o individuo foi trazido ao mundo.
2- O Governo é o Educador do Homem – Sócrates oferece outra razão para
obediência ao seu governo. “Em segundo lugar, porque é o autor da sua
educação.” A implicação aqui é que a própria educação que faz com que uma
pessoa seja o que é lhe foi dada pelo seu governo.
3- O Governado Comprometeu-se a Obedecer ao Seu Governo – a terceira razão que
Platão dá para a obediência ao governo é que “fez um acordo com ele de que
obedecerá devidamente aos seus mandamentos.” Ou seja: o consentimento do
governado para fazer daquele governo o governo dele, ao comprometer-se à
fidelidade a ele, obriga-o a obedecer às suas leis ou sofrer as conseqüências.
Pelo próprio fato de que um homem faz de um determinado país seu país, por isso
mesmo fez um acordo tácito de ser obediente aos seus mandamentos. Escreveu Platão:
“o castigo deve ser suportado em silencio; e se ela nos levar a ferida ou à
morte na batalha, para lá iremos conforme é justo” porque se alguém vai
aceitar os privilégios da educação e da proteção do seu governo, então
concordou, implicitamente, que aceitara as responsabilidades e as penalidades
do seu governo, no sentido de obedecer às suas leis e até mesmo ir à guerra por
ela.
4- O Governado Não Está Compelido a Permanecer Sob Seu Governo – Platão usa
para apóias sua tese de que não se deve desobedecer ao seu governo. “Qualquer
pessoa que não gosta dele nem da cidade, pode ir para onde quiser...”, “fazer
apenas o que um escravo miserável faria, fugindo e virando as costas aos
entendimentos e contratos feitos como cidadão”. Noutras palavras, se alguém não
estiver disposto a obedecer à sua pátria, deve achar outra pátria à qual possa
obedecer.
5- Sem Governo Haveria Caos Social – outra razão porque não deve desobedecer ao
seu governo está subentendida na pergunta de Platão: “e quem se importaria com
um Estado que não tivesse leis?” uma lei injusta é má, mas nenhuma lei é ainda
pior.
Há muitas
razões porque o pacifismo rejeita os argumentos dos ativistas. As razões dadas
pelo pacifista podem servir tanto como uma crítica do ativismo total, quanto
com a outra metade do diálogo sobre a guerra que força o cristão a examinar
tanto sua bíblia quanto sua consciência para uma conclusão sobre um problema
inquietante. Os argumentos em prol do pacifismo podem ser divididos em dois
grupos básicos, o bíblico e o social.
A- Os Argumentos Bíblicos: “A Guerra Sempre é Errada”
Há muitos aspectos no argumento do pacifista cristão contra todas as guerras,
mas há várias premissas bíblicas por detrás de todos eles. Uma destas premissas
esta declarada na injunção bíblica: “não matarás,” (Ex 20:13) e a outra nas
palavras de Jesus: “não resistais ao perverso” (Mt 5:39).
1- Matar Sempre é Errado – no coração do pacifismo há a convicção de que tirar
a vida intencionalmente, especialmente na guerra, é básica e radicalmente
errado. A proibição bíblica: “não matarás,” inclui a guerra. Visto que esta
conclusão, à primeira vista, é contraria aos muitos casos nas Escrituras que,
segundo parece, parecem ordenar a guerra, os pacifistas cristãos devem oferecer
uma explicação de o porquê a bíblia dá a impressão de, às vezes, ordenar a
guerra. Várias respostas têm sido dadas por diferentes pacifistas.
Primeiramente, as guerras do Antigo Testamento, em que se representa Deus
“ordenando” a guerra, não foram realmente ordenadas por Deus de modo algum.
Representam um estado mais bárbaro da humanidade em que as guerras eram
justificadas ao ligar a elas sanções divinas. Outra explicação é que estas
guerras eram sem igual, porque Israel estava agindo com instrumento teocrático
nas mãos de Deus, conforme evidenciado pelos milagres especiais que Deus
operava para ganha-las. Finalmente, às vezes é argumentado que a guerra no
Antigo Testamento não era a “perfeita” vontade de Deus, mas sim à vontade
“permissiva”. Ou seja: retrata-se a Deus “ordenando” Samuel a ungir Saul rei,
ainda que Deus não lhe tivesse escolhido Saul para rei, mas sim a Davi (I Sm
10:1).
O Antigo Testamento ensina claramente que a pessoa deve amar seus inimigos (Lv
19:18,34), e Jesus reafirmou este ensino, dizendo: “amai vossos inimigos e
orai pelos que vos perseguem...” (Mt 5:44). A guerra baseia-se no ódio, e é
errada. Tirar a vida de outras pessoas é contrário ao principio do amor e é,
portanto, basicamente não-cristão.
2- Resistir ao Mal, à Força, é Errado – em conexão estreita com a primeira
premissa básica do pacifismo, do que é errado matar, há outra, diz: o mal nunca
deve ser resistido com força física, mas com a força espiritual do amor. Jesus
não disse: “não resistais o perverso; mas a qualquer que te ferir na face
direita, volta-lhe também a outra” (Mt 5:39)?, Cristo não ensinou também
nesta passagem: “se alguém te obrigar a andar um milha, vai com ele duas”
(vs 41)? O cristão não deve retaliar nem pagar o mal com o mal.
3- A Ética Pública e Particular é a Mesma – outra premissa básica do pacifismo
é que não há distinção real entre aquilo que se deve fazer como cidadão
particular e aquilo que se deve fazer com oficial público. Aquilo que é errado
para uma pessoa fazer na sua própria vizinhança (matar), é errado em qualquer
outra vizinhança do mundo.
B- Os Argumentos sociais: “A Guerra é Sempre Má”
Há fortes argumentos sociais contra a guerra. Não é a melhor maneira de
solucionar disputas humanas. Um rio de sangue humano tem sido deixado no
séqüito das guerras, e no curso da história. Males de todos os tipos resultam
da guerra: a fome, a crueldade, as pessoas e a morte.
1- A Guerra é Baseada no Mal da Ganância – já nos tempos de republica de
Platão, pessoas que pensavam reconheciam que o desejo pelo luxo era a base da
guerra. Escreveu: “não precisamos dizer ainda se a guerra faz o bem ou o mal,
mas somente que descobrimos sua origem nos desejos (pelas riquezas) que são a
fonte mais frutífera dos males, tanto para os indivíduos quanto para os
estados”.
2- A Guerra Resulta Muitos Males – os muitos males da guerra são
bem-conhecidos, e não é necessário alongar-nos sobre o assunto aqui. O
concomitante da guerra é a morte e a destruição. A fome e a peste frequentemente
resultam da guerra também. Talvez não haja maneira de estimar a tristeza, a
dor, e até mesmo a crueldade e a tortura, usualmente, vinculadas com a guerra.
3- A Guerra Cria Mais Guerra – um dos piores resultados da guerra é que cria
mais guerra. Nenhuma guerra, até o presente, realmente deixou o mundo livre de
guerras. Inimigos subjugados frequentemente fazem um levante para retaliar
contra seus conquistadores.
A partir da
insatisfação com as soluções “fáceis” de declarar justas todas as guerras, ou
nenhuma guerra justificável, está emergindo um número crescente de partidários
do seletivismo, que sustenta que algumas guerras são justificáveis, e outras
não. É este ponto de vista que nos parece ser a alternativa mais satisfatória
para o cristão.
A- Uma Base
Bíblica para o
Seletivismo
Tanto o ativismo quanto o pacifismo reivindicam o apoio da Escritura. O
seletivismo é apenas uma terceira maneira de interpretar os mesmos dados
bíblicos? Respondendo, sugerimos que tanto o ativismo quanto o pacifismo tem
razão (pelo menos parcialmente) e que o sentido em que ambos têm razão é a
essência do seletivismo. Noutras palavras, o seletivismo é uma síntese do ativismo
e do pacifismo. A verdade do seletivismo é que algumas guerras são justas e que
os cristãos devem lutar nestas. O seletivismo, portanto, firma-se na posição de
que a pessoa deve participar somente de uma guerra justa.
1- Algumas Guerras São Injustas – a rejeição do ativismo total é apoiada pelas
Escrituras. A bíblia, pois, ensina que nem sempre é certo obedecer ao seu
governo em tudo quanto ordena, e especialmente quando seus mandamentos
contradizem as leis espirituais superiores de Deus. Há claros exemplos disto na
bíblia. Os três jovens hebreus desobedeceram ao mandamento do Rei no sentido de
adorar um ídolo (Dn. 6). Os apóstolos desobedeceram às ordens no sentido de não
pregarem o Evangelho de Cristo (Atos 4 e 5). E, num caso muito claro de desobediência,
divinamente aprovada, à lei civil, as parteiras hebréias, no Egito,
desobedeceram ao mandamento no sentido de matar todos os nenês do sexo
masculino que nascessem. Está escrito: “as parteiras, porém, temeram a Deus,
e não fizeram como lhes ordenara o rei do Egito, antes deixaram viver os
meninos... E Deus fez bem as parteiras... e o povo aumentou e se tornou muito
forte.” Além disto, “porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes
constituiu família.” (Ex 1:17, 19-21). Esta passagem ensina claramente que
é errado tirar a vida de um ser humano, ainda que o governo “ordenado por Deus”
o determine.
2- Algumas Guerras São Justas – há uma citação um pouco mais negligenciada de
Jesus que talvez dê apoio à alegação de que o individuo tem o direito de
brandir uma espada em defesa própria. É bem conhecido que Jesus admoestou seus
discípulos a não propagarem o Evangelho com a espada (Mt 5:39). Mas às vezes é
olvidado que Jesus mandou seus discípulos comprarem uma espada, (para sua
própria proteção). Disse-lhes: “o que não tem espada, venda a sua capa e
compre uma” (Lucas 23:36). Visto que as espadas eram proibidas por Jesus,
ou para o propósito de apoiar a pregação do Evangelho ou para a defesa contra
ser perseguido por causa do Evangelho (Jo. 18:11). Se as espadas eram excluídas
por Jesus por motivos religiosos, podemos assumir que eram incluídas por
motivos civis. Ou seja: as espadas a defesa civil da pessoa. Aqui parece haver
a sanção de Jesus ao uso justificável de um instrumento de morte na defesa
contra um agressor injusto. Ou seja: Jesus ordenou o uso da espada com meio da
auto-defesa.
B- A Base
Moral para o Seletivismo
O
seletivismo pode ser defendido em outras bases, além das bíblicas. Há fortes
argumentos morais que também podem ser oferecidas em seu favor. Duas de tais
razões morais para o seletivismo agora são oferecidas.
1- Tanto o Pacifismo quanto o Ativismo São Fugas Morais – sustentar, ou o
pacifismo completo, ou o ativismo total, é a saída moral fácil de uma posição
ética difícil. É muito fácil para alguém deixar sua pátria decidir por ele que
todas as guerras são justas. Isso absolve o cidadão individual de qualquer luta
para decidir se a guerra para a qual esta sendo convocado é justa ou injusta.
Realmente não importa, porque a obediência ao governo sempre é certa: o governo
é responsável pela guerra. O soldado não está agindo como indivíduo, mas, sim,
como oficial do estado. O que faz enquanto está “fardado” não é sua
responsabilidade ética. Assim, é a maneira eticamente fácil do ativismo de
resolver a responsabilidade moral de fazer aquilo que é moralmente certo,
independentemente daquilo que os governantes mandam.
2- O Mal Deve Ser Resistido – outra falácia no pacifismo é a premissa de que o
mal não deve ser resistido à força. Pelo contrario, é moralmente injustificável
não resistir ao mal. Permitir um assassinato quando a pessoa poderia tê-lo
impedido, é errado. Deixar acontecer um estupro que a pessoa poderia ter
evitado é um mal. Observar um ato de crueldade a uma criança sem procurar
intervir, é moralmente indesculpável. Em síntese, não resistir ao mal é um
pecado de omissão, os pecados de omissão podem ser tão maus quanto os pecados
de comissão.
Por Eder Mendes da Mota (aluno da ETAL de SJ Rio Preto - SP)
Livro: "Ética Cristã"; Norman L. Geisler; Ed. Mundo Crist
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