O ATO DE BEBER NA IGREJA APOSTÓLICA



A importância da Igreja Apostólica como modelo para as crenças e práticas cristãs, vai além dos ensinamentos no uso de bebidas alcoólicas. A maneira como os apóstolos entendiam, pregavam e praticavam o ensinos de Jesus e do Velho Testamento (VT), relativo às bebidas alcoólicas, é fundamental para determinar, se nós como cristãos atuais, teríamos que nos posicionar ao lado da moderação ou da abstinência.1

As referências específicas do Novo Testamento (NT) para “vinho” (oinos) fora dos quatro evangelhos, são trinta, oito das quais ocorre no livro do Apocalipse, onde “vinho” é usado, na maioria das vezes simbolicamente, para representar a depravação humana e a retribuição divina. Em acréscimo aos textos mencionando “vinho”, especificamente no NT, são mais 20 passagens admoestando os cristãos a serem “sóbrios” ou “temperantes”. Em muitos casos, como veremos, estas admoestações estão relacionadas, diretamente, ao ato de beber. Examinaremos, brevemente, primeiro alguns dos textos sobre vinho e então “as admoestações para a abstinência”.

ATOS 2:13: “CHEIOS COM VINHO NOVO”


Os apóstolos mal começaram sua proclamação messiânica, quando foram acusados de estarem embriagados. No dia de Pentecostes o primeiro grupo de crentes recebeu o dom de línguas, habilitando-os a pregarem o evangelho nas línguas dos povos reunidos na festa em Jerusalém. Enquanto milhares creram em Cristo como resultado do milagre, outros começaram a zombar dos discípulos dizendo: “Estão cheios de vinho novo” (Atos 2:13)

Alguns admitem que os zombadores não poderiam ter acusado os cristãos de estarem bêbados, exceto se alguns desses cristãos tivessem bebido vinho com álcool em ocasiões anteriores. A fragilidade desta argumentação é que eles assumem que a acusação desses zombadores era baseada numa observação factual do ato de beber cristão. Os escarnecedores, porém, não baseavam, necessariamente, sua difamação numa observação factual. Além do mais, se os escarnecedores desejassem realmente responsabilizar os discípulos como bêbados, eles poderiam ter-lhes acusado de estarem cheios com “vinho” (oinos) e não “com suco de uva” (gleukos)

A Ironia da Acusação. Tendo em vista o significado estabelecido de gleukos como suco de uva não intoxicante, a ironia da acusação é evidente por si mesma. O que os zombadores queriam dizer é “estes homens, muito abstêmios ao toque de qualquer coisa fermentada, tiveram que se embriagar com suco de uva.” Ou como Ernest Gordon coloca numa linguagem moderna, “estes abstêmios se embriagaram com bebida suave”.2

Alguém dificilmente poderia deixar de ver na ironia dessa acusação de que os apóstolos se embriagaram, com suco de uva (sua bebida comum), uma prova indireta, mas importante, de seu estilo de vida abstinente e , por inferência, do estilo de vida abstêmio de seu Mestre.

A confirmação histórica desta prática é provida pelo testemunho de Hegésipo, que viveu imediatamente depois dos apóstolos3. Escrevendo concernente a isto “Tiago, irmão do Senhor, [o qual] iria sucedê-lo na direção da Igreja em conjunto com os apóstolos,” Hegésipo disse: “Ele foi consagrado desde o útero de sua mãe; ele não bebeu vinho nem bebida forte e nem comeu carne”. Podemos concluir que o estilo de vida de Tiago, que por algum tempo trabalhou como diretor presidente da Igreja em Jerusalém, serviu como exemplo para os cristãos apostólicos seguirem.4

EFÉSIOS 5:18: “NÃO VOS EMBRIAGUEIS COM VINHO”


Uma poderosa indicação bíblica contra o vinho intoxicante é encontrada em Efésios 5:18, onde Paulo admoesta os Efésios, dizendo: “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Ef. 5:18). A passagem consiste de duas importantes declarações postas em contraste (antítese) para cada uma: “embriagueis com vinho” contra “enchei-vos do Espírito”.

A antítese sugere que o contraste não está entre a moderação e o excesso, mas entre estar cheio de vinho e cheio do Espírito. As duas declarações apontam para uma incompatibilidade inerente a natureza e a ação entre as fontes de tal abundância, isto é, embriagando-se com o vinho e com o Espírito Santo. Tal incompatibilidade mútua impede a aprovação para um uso moderado de vinho intoxicante.

O Que é Dissolução? A admoestação de Paulo “E não vos embriagueis com vinho” é seguida de uma advertência a qual na versão RSV é traduzida “pelo que é dissolução”. Uma tradução literal do texto em grego poderia ser lido assim: “E não vos embriagueis com vinho, no qual [en ho] é dissolução [asotia -- literalmente, ‘não salvo’].” A RSV traduz “en ho -- na qual” em “para que”, torna a condição de estar bêbado com vinho, em lugar do mesmo vinho, o assunto da “dissolução”.

Esta construção da sentença não é baseado em nenhuma necessidade exegética do texto, mas no assunto de que o uso moderado de vinho fermentado não era permitido nos tempos do Novo Testamento.

Historicamente numerosos tradutores e comentaristas, têm visto no “vinho”, em vez do estado de embriaguês, a causa da dissolução. A razão é a posição de oinos (“com vinho”), que no grego vem imediatamente antes do pronome relativo “que”. Apoio para isto também é suprido pelo fato de que as palavras “não vos embriagueis com vinho”, como mostra o comentário The Interpreter's Bible, “foram citados de Prov. 23:31 (A Septuaginta concorda com o Codex A)”5 onde o texto condena o uso de vinho intoxicante (“Não olhes para o vinho, quando se mostra vermelho”), em vez do abuso.

Entre as traduções antigas que traduzem Efésios 5:18 como uma condenação ao próprio vinho intoxicante, a menção pode ser feita da Vulgata Latina (aproximadamente 400 a.D), que diz: “nolite inebriari vino, in quo est luxuria" e não seja embriagado com vinho, o qual é voluptuoso”). A conexão entre vino “vinho” e quo “que” é inconfundível nesta tradução latina, porque o pronome relativo quo tem o mesmo gênero neutro de vino, sobre o qual ele está sujeito.

Traduções Modernas. Numerosas traduções modernas seguem a Vulgata nesta fidelidade literária. Por exemplo, a Versão Sinodal Francesa diz: “Ne vous enivrez pas de vin: car le vin porte à la dissolution” (“Não se embriaguem a si mesmos com vinho, pois o vinho leva à dissolução”). Para remover qualquer possibilidade de equívoco, os tradutores têm repetido a palavra “vinho” na cláusula relativa. A mesma clareza de conexão é encontrada na tradução francesa de David Martin, na versão francesa de Ostervald, no rodapé da New American Standard Bible, na tradução de Robert Young, na Good News German Bible (“Die Gute Nachricht”), na versão Protestante Italiana de Riveduta por Giovanni Luzzi, bem como na versão Católica produzida pelo Instituto Pontífice Bíblico.

À luz de numerosas traduções antigas e modernas que têm traduzido a cláusula relativa de Efésios 5:18 como uma condenação não a embriaguez, mas ao vinho em si, poder-se-ia afirmar que por causa de sua predileção por vinho algum tradutor inglês tenha escolhido, como Ernest Gordon expõe, “livrar a cara do vinho enquanto se condena a embriaguez”.6

1 TIMÓTEO 5:23: “USA UM POUCO DE VINHO, POR CAUSA DO TEU ESTÔMAGO E DAS TUAS FREQÜENTES ENFERMIDADES.

Quando o assunto do vinho é apresentado na Bíblia, o primeiro texto que aparece e que vem à mente de muitas pessoas é de 1 Tm. 5:23, onde Paulo aconselha a Timóteo dizendo: “Não continues a beber somente água; usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades”. Este texto tem sido usado durante os últimos dezenove séculos por muitas pessoas para justificar sua ingestão de bebidas alcoólicas. Assim, é importante para nós estabelecermos a natureza do conselho de Paulo e sua implicação para os dias de hoje

A Natureza do Conselho de Paulo. O aviso de Paulo a Timóteo deve ser considerado, em primeiro lugar, como uma expressão da preocupação paterna e não como uma proibição obrigatória. O apóstolo não está ordenando seu filho amado no Evangelho, para beber vinho livremente; em vez disso ele o aconselha a usar um pouco de vinho “por causa de seu estômago e de suas freqüentes enfermidades”.

A cautelosa precaução da linguagem do apóstolo é muito significante. Ele não diz, “Não continues a beber água”, mas especialmente, “Não continues a beber somente água.” Ele não disse, “Beba vinho,” mas de especialmente “use um pouco de vinho com água.” Ele não disse, “para o prazer físico de seu abdômen,” mas especialmente “para a utilização terapêutica de seu estômago.” De igual modo se o “vinho” fosse fermentado, este texto não apoiaria seu uso regular de jeito algum. Ele não diz para Timóteo, “Beba. . .” mas “Tome. . .” O verbo “tomar” é usado por um médico quando prescreve a dosagem de um medicamento para um paciente. Semelhantemente o adjetivo “pouco” implica um uso muito moderado de vinho. Isto parece mais a prescrição de um médico a um paciente do que um princípio geral para todas as pessoas.

Timóteo Foi um Abstêmio. Um outro fator freqüentemente ignorado é que a advertência “Não continues a beber somente água” implica que Timóteo, como os sacerdotes e nazireus, absteve-se de vinho fermentado e não fermentado desde a época de seu nascimento, presumivelmente em concordância com as instruções e o exemplo de Paulo.

Anteriormente na mesma epístola Paulo disse que o que se requeria de um bispo Cristão não era apenas ser abstinente (nephalion), mas também não participante de bebidas em lugares e festas (me paroinon -- 1 Tm 3:2-3). É razoável assumir que o apóstolo não poderia ter instruído a Timóteo para requere abstinência dos líderes da igreja sem primeiro ensiná-lo com tal princípio. O fato de que Timóteo tenha bebido apenas água, implica que ele tinha sido seguido o conselho de seu mestre muito meticulosamente.

A abstinência de um ministro cristão era baseado, presumivelmente, na legislação do Velho Testamento proibindo os sacerdotes de usarem bebidas intoxicantes (Lev. 10:9-10). O sentido natural poderia ser que um ministro cristão não deveria ser menos santo que um sacerdote judeu, especialmente porque a razão para a lei mosaica seria a mesmo: “Para fazerdes diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo e para ensinardes aos filhos de Israel todos os estatutos que o SENHOR lhes tem falado por intermédio de Moisés.” (Lev. 10: 10-11) O princípio da abstinência não foi violado pela recomendação de Paulo, porque o uso de um pouco de vinho era recomendado não para o prazer do abdômen, mas como uma necessidade terapêutica do estômago.

O Tipo de Vinho. Admite-se, geralmente, que o vinho que Paulo recomendou para Timóteo era alcoólico. Mas isto não é estabelecido por nenhum modo exato, por duas razões. Primeiro, porque o termo oinos (“vinho”), como mostramos, era usado de forma genérica para denotar tanto o vinho fermentado como o não fermentado. Segundo, porque há testemunhos históricos que atestam o uso de vinho não fermentado para propósitos terapêuticos.

Aristóteles (384-322 a.C.) recomenda o uso de um doce suco de uva, chamado glukus no grego, porque, disse ele, “embora chamado vinho [oinos ], ele não tem o efeito do vinho. . . e não é intoxicante como o vinho normal.”7 Ateneus, o gramático (280 d.C), aconselha, especificamente, o uso de “suco de uva” não fermentado (glukon oinon) para doenças estomacais. Ele escreve: “Deixai-o tomar um vinho doce, seja qual for, misturado com água ou aquecido, especialmente aquele tipo chamado protropos, o doce glukus de Lesbos, como sendo bom para o estômago; pois o vinho [oinos ] doce não torna a cabeça pesada.”8 Aqui temos um aviso que repercute de modo notavelmente semelhante ao de Paulo, com a diferença de que Ateneus qualifica o tipo de vinho recomendado, ou seja, o vinho doce, chamado “lesbian” porque seu poder alcoólico foi removido.

Uma advertência semelhante relativo ao uso do vinho como terapêutico é dado por Plínio (79 a.D), um contemporâneo de Paulo e autor do célebre História Natural. Ele recomenda o uso de um vinho não fermentado, fervido chamado adynamon por pessoas doentes “para quem teme o vinho pode ser prejudicial”.9 Ele também recomenda prevenir os efeitos colaterais do álcool, usando vinhos os quais o teor alcoólico tenha sido removido através da filtração: “Os vinhos são muito benéficos quando toda sua força tenha sido superada pelo coador”.10

À luz desses testemunhos, é razoável assumir que o vinho recomendado por Paulo a Timóteo pode muito bem ter sido não fermentado. Ellen White apóia esta conclusão, dizendo: “Paulo advertiu Timóteo para tomar um pouco de vinho por causa de seu estômago e freqüentes enfermidades, mas ele se referia ao suco de uva não fermentado. Ele não advertiu Timóteo a beber aquilo que o Senhor tinha proibido”.11

ADMOESTAÇÕES PARA A ABSTINÊNCIA


As admoestações apostólicas relativas à abstinência são expressas através do verbo grego nepho e do adjetivo nephalios (1 Tess. 5:6-8; 1 Ped. 1:13; 4:7; 5:8; 2 Tim. 4:5; 1 Tim. 3:2,11; Tito 2:2). É digno de nota a unanimidade do léxico grego entre o significado primário do verbo nephocomo “abster-se do vinho” e do adjetivo nephalios como “abstinente, sem vinho”.12

Este significado é confirmado nos escritos de Josefo e Filo, que foram contemporâneos de Pauloe Pedro. No seu “Antiquities of the Jews” Josefo escreve dos sacerdotes: “Aqueles que se vestiam com trajes sacerdotais estavam sem mancha e eram destacados por sua pureza e sobriedade [nephalioi], não lhes sendo permitido beber vinho a partir do momento que eles estivesse usando esses trajes do vestuário.”13 Semelhantemente, Filo explica em seu “Special Laws” que os sacerdotes deveriam oficiar com nephalios, ou seja, totalmente abstinentes de vinho, pois eles tinham que cumprir as diretrizes da lei e deveriam estar numa posição para agirem como o último tribunal terrestre.14

Se Josefo, Filo e uma grande quantidade de outros escritores usaram nepho/nephalios como significado primário para “abstinente do vinho”, nós temos razões para crer que Paulo e Pedro também usaram estes termos com o mesmo significado. Esta conclusão é apoiada, como veremos, pelo contexto em que estes termos são usados. Contudo estas palavras têm sido usualmente traduzidas de modo figurativo no sentido de ser “temperante, sóbrio, equilibrado”. Essas traduções incorretas têm corrompido muitos sinceros cristãos na crença de que a Bíblia ensine a moderação no uso de bebidas alcoólicas, em vez da abstinência delas. Examinemos algumas das admoestações apostólicas para abstinência.

1 Tessalonicenses 5:6-8. Em sua carta aos Tessalonisenses Paulo admoesta os crentes para “serem sóbrios” tendo em vista a vinda súbita e inesperada de Cristo, dizendo: “Assim, pois, não durmamos como os demais; pelo contrário, vigiemos e sejamos sóbrios [nephomen]. Ora, os que dormem dormem de noite, e os que se embriagam é de noite que se embriagam. Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios [nephomen]. revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como capacete a esperança da salvação” (1 Tess. 5: 6-8)

Esta passagem consiste de um número de paraelos contrastantes: luz e trevas, dia e noite, acordado e dormindo, sóbrio e embriagado. À luz desses contrastes entre os filhos do dia que são sóbrios e aqueles da noite que são embriagados, é evidente que a exortação para “ser sóbrio” não signifique meramente para ser mentalmente vigilante, mas principalmente para ser abstêmio fisicamente.

Esta conclusão é apoiada pela ligação entre sobriedade e vigilância: “Vigiemos e sejamos sóbrios” (v. 6). O primeiro verbo, gregoromen, refere-se à vigilância mental e o segundo, nephomen, a abstinência física. De qualquer forma isto poderia ser uma repetição desnecessária (tautologia): “Vigiemos e sejamos sóbrios”. É evidente que Paulo faz a ligação da vigilância mental com a abstinência física, porque as duas andam juntas. Vigilância mental no Novo Testamento é ligado, freqüentemente, como veremos, com a abstinência física. Isto se tornará mais claro quando consideramos as outras passagens em questão.

1 Pedro 1:13. A admoestação para a abstinência física, expresso através do verbo grego nepho , ocorre outras três vezes na primeira epístola de Pedro (1:13; 4:7;5:8). É importante notar que em todos os três textos, a exortação de Pedro à abstinência é dada no contexto da prontidão pelo iminente retorno de Cristo. Isto implica que Pedro, assim como Paulo, fundamenta seu chamado a uma vida de abstinência e santidade na certeza e na iminência do retorno de Cristo.

O primeiro uso de nepho por Pedro ocorre em 1 Pedro 1:13: “Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios [nephontes] e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.” Aqui Pedro, como Paulo, correlaciona a vigilância mental (“cingindo as vossas mentes”) com a abstinência física (“sede sóbrios”).

A advertência para “ser abstinente” assume uma forma radical em 1 Pedro 1:13 porque ele é seguido imediatamente pelo advérbio “teleios”, que significa “perfeitamente” ou “completamente”. Assim, a tradução correta é, “sede completamente ou perfeitamente abstinentes.” Muitos tradutores, presumivelmente por causa de sua predileção em beber, escolheram fazer de teleios um modificador do verbo seguinte elpisate (“esperai inteiramente”), assim, traduzindo-o “esperai completamente” (RSV) ou “espera até o fim” (KJV). Mas a expressão idiomática usada em outro lugar no Novo Testamento para “até o fim” não é teleios em si, mas uma combinação de mechri telous ou heos telous (Heb. 3:6, 14; 1 Cor. 1:8; 2 Cor. 1:13).

É notável que a Vulgata, a famosa tradução do latim de Jerônimo que trabalhou como oficial da Bíblia Católica durante séculos, traduziu teleios como um modificador de nephontes, assim, “sobrii perfecte” (“perfeitamente sóbrio”). Na minha visão a tradução de Jerônimo reflete exatamente a intenção de Pedro, que repetiu seu apelo à abstinência outras duas vezes em sua epístola. Então, a tradução correta deveria ser: “Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede completamente abstinentes, e esperai na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.”

1 Pedro 4:7. O segundo uso de nepho ocorre em 1 Pedro 4:7: “Ora, o fim de todas as coisas está próximo; sede, portanto, criteriosos [sophronesate] e sóbrios [nepsate] a bem das vossas orações.” Aqui Pedro exorta outra vez os cristãos a serem mentalmente vigilantes e fisicamente abstinentes. O significado de nephocomo abstinência ao vinho é sugerido, também, pelo contexto, onde Pedro contrasta o estilo de vida passado de “dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias” (1 Ped. 4:3) com o novo estilo de vida de temperança e abstinência. A passagem pode ser parafraseada como segue: “O fim de todas as coisas está nas nossas mãos; portanto seja sóbrio na mente e abstêmio na vida para que possamos manter uma vida devocional saudável neste tempo crítico.”

1 Pedro 5:8. O terceiro uso de nepho ocorre em 1 Pedro 5:8: “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar.” Da mesma maneira que nos dois exemplos anteriores, Pedro também associa a vigilância mental com a abstinência física, porque os dois são mutuamente dependentes. Bebidas intoxicantes diminuem o poder da consciência e da razão, enfraquecendo assim as restrições para praticar o mal. O resultado final é que Satanás é mais competente “para devorar”, literalmente, cada pessoa “submetida a bebida” (katapino).

O contraste entre nepsate (de ne piein, “não beber”) e katapiein (de kata piein “beber de uma só vez”) foi reconhecido por Adam Clarke, que comenta: “Não é todo indivíduo que pode ingerir. Aqueles que são sóbrios e vigilantes são a prova contra isso; estes não podem ser devorados. Aqueles que se embriagam com os cuidados deste mundo e não são vigilantes, poderão ser devorados. Há uma beleza neste verso, e uma impressionável justaposição entre as primeiras e as últimas palavras, que acho que não foram notadas; -- Ser sóbrio, nepsate, de ne não e piein, beber--não ingerir--e a palavra katapiein, de kata, de uma vez e piein beber. Se você ingerir fortemente uma bebida, o diabo devorará você. Ouçam isto, bebedores, bêbados, beberrões, seja lá qual for o nome conhecido na sociedade ou entre seus companheiros--pecadores, bebida forte não é apenas o seu caminho para o mal, mas o caminho do mal em você. Isto é como o mal particularmente pode engoli-lo”.15

Resumindo, as cinco pasagens de nepho , duas de Paulo (1 Tess 5:6-8) e três de Pedro (1 Ped 1:13; 4:7; 5:8), todas mostram com inacreditável consistência o encorajamento à vigilância mental e à abstinência física. É também significativo que todas as cinco passagens para abstinência foram dadas no contexto da preparação para o iminente retorno de Cristo.

Nephalios como Abstinência Física. O adjetivo nephalios é usado três vezes por Paulo em sua descrição das qualificações desejadas dos bispos, mulheres e anciãos. O primeiro dos dois exemplos ocorre em 1 Timóteo 3:2,11: “É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante [nephalion], sóbrio [sophrona], modesto, hospitaleiro, apto para ensinar, não dado ao vinho [me paroinon] . . . Da mesma sorte, quanto a mulheres, é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes [nephalious], e fiéis em tudo.” O terceiro exemplo é encontrado em Tito 2:2, “Quanto aos homens idosos, que sejam temperantes [nephalious], respeitáveis, sensatos [sophronas], sadios na fé, no amor e na constância.”

Anteriormente observamos que o adjetivo nephalios é usado por autores contemporâneos como Filo e Josefo para denotar abstinência ao vinho. Esta interpretação literal é apoiada pelo fato de que em 1 Tim. 3:2 e Tito 2:2 o adjetivo nephalios ocorre juntamente com sophron, o primeiro para denotar abstinência física e a segunda para vigilância mental. A ligação entre as duas requer uma interpretação literal de nephalios, como abstinência ao vinho

“Não Beber”. Alguns argumentam que a interpretação literal de nephalios como abstinente é contestado pelo me par oinos , traduzido “não beber” pela RSV. Eles argumentam que Paulo não poderia ter imposto ao bispo primeiro para ser abstinente então para “não beber”, que é, o uso moderado do vinho. Esta aparente contradição é resolvida reconhecendo que o significado de paroinos vai além “adicionar vinho, embriagar-se”16 para complemntar a idéia de ser para “perto” oinos “vinho”, que é, perto a um lugar onde o vinho é consumido. “O antigo paroinos ,” como Lees e Burns explicam, “era um homem acostumado a freqüentar e a beber em festas e, como conseqüência, ficava intimamente associado a bebida forte.”17

Albert Barnes, um respeitado comentarista do Novo Testamento, explica o significado de paroinos dizendo: “A palavra grega (paroinos ). . . significa, propriamente, através do vinho; que é, falado daquele que toma o lugar ou é envolvido pelo vinho, como em orgias, canções de bebedeira, etc. Isto denota, como feito aqui, alguém que senta através do vinho; ou seja, está habituado a beber. . .

Isto significa que alguém que está habituado a beber vinho ou que esteja acostumado a sentar com aqueles que cedem nisto, não deveria ser admitido no ministério. O modo no qual o apóstolo menciona o título aqui, deveria nos levar a supor corretamente que ele não pretendesse recomendar seu uso em qualquer sentido; o que ele observa como perigoso e que ele desejaria aos ministros da religião para que evitassem isto completamente”.18

O significado de paroinos como “próximo do vinho”, ou seja, aproximar-se de um lugar bebendo, é apoiado pelo léxico grego antigo e moderno. O Lexicon Graeci Testamenti Alphabeticum, publicado em 1660, define paroinos no Grego e no Latim como “para to oino, apud vinum”, que poderia ser traduzido “próximo ou na presença do vinho”.19 Liddell e Scott definem a palavra próximo como “adequado a uma festa com bebidas”.20

Entendido neste sentido, me paroinos não enfraquece nephalios. Pelo contrário, isto o fortalece. O que Paulo está dizendo é que o bispo não deveria ser apenas abstinente, mas também evitar sua presença e aprovação em lugares e associações nas quais poderia tentar sua abstinência ou de outros. Isto se ajusta muito bem à admoestação de Paulo em 1 Coríntios 5:11, “Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais”.21

A razão fundamental dada por Paulo para viver uma vida abstinente e piedosa é escatológica: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tito 2: 11-14). Vida saudável e santa comentada na Escritura não é somente por causa da saúde pessoal e da bondade, mas principalmente por causa do desejo de Deus em morar conosco nesta presente vida (1 Cor. 3:16-17; 6:13) e no companheirismo conosco na vida por vir.

É esta esperança de ser preparado para receber a Cristo e para ser recebido por Ele no dia de Seu glorioso aparecimento, que deveria motivar a cada cristão para “a si mesmo se purificar como ele é puro.” (1 João 3:3) É esta a esperança que Pedro apela quando ele encoraja por vigilância mental e abstinência física nos três textos examinados anteriormente. Ele admoesta para “cingindo o vosso entendimento, sede completamente sóbrios” é seguido, imediatamente, pela exortação “e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo” (1 Ped. 1:13)

Para os cristão que crêem na certeza e iminente Retorno de Cristo, as admoestações apostólicas para abstinência às bebidas intoxicantes, assume significância adicional: eles representam uma resposta tangível ao convite de Deus para fazer uma preparação concreta para a Segunda vinda de Cristo.

CONCLUSÃO


Os ensinamentos bíblicos relativos ao uso de bebidas alcoólicas pode ser resumido em uma sentença: a Escritura é consistente em ensinar a moderação no uso saudável, de bebidas não fermentadas e à abstinência ao uso de bebidas fermentadas intoxicantes. A implicação prática desta conclusão pode também ser estabelecida em uma sentença: quando aceitamos os ensinos bíblicos de que bebidas alcoólicas não são apenas prejudiciais, mas também moralmente errado, sentiremo-nos compelidos a não sermos apenas abstinentes por nós mesmos à substâncias intoxicantes, mas também a ajudar a outros da mesma forma.

NOTAS


1. Rom 14:21; Efe. 5:18; 1 Tim 3:8; 5:23; Tito 2:3; Apoc. 6:6; 14:8; 14:10; 16:19; 17:2; 18:3, 13; 19:15.

2. Ernest Gordon, Christ, the Apostles and Wine. An Exegetical Study (Filadélfia, 1947), p. 20.

3. Citado por Eusébio, História da Igreja 2, 23, 4 ed. Philip Schaff e Henry Wace, Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church (Grand Rapids, 1971), vol. 1, p. 125. 1971), vol. 1 p. 125.

4. Uma investigação no estilo de vida de cada seita judaica cristã como os Ebionitas, os Nazarenos, os Elkesiates e o Encratites, poderiam prover apoio considerável à abstinência ao vinho fermentado na Igreja Apostólica. Um pouco de informação nesta consideração é suprida por G. W. Samson, The Divine Law as to Wines (Nova York, 1880), pp. 197-210. O valor da pesquisa, porém, é reduzido pela falta de referências precisas.

5. The Interpreter's Bible (Nova York, 1970), vol. 11, p. 714.

6. Ernest Gordon (n. 2), p. 31.

7. Aristóteles, Meteorologica 387.b. 9-13.

8 Ateneus, Banquet 2, 24.

9 Plínio, História Natural, 14,18.

10. Ibid., 23, 24.

11. Ellen G. White, "The Marriage in Cana of Galilee", The Signs of the Times (6 de setembro de 1899): 6.

12. Ver, por exemplo, G. W. Lampe, A Patristic Greek Lexicon (Oxford, 1961), s. v. “nepho ”; James Donnegan, A New Greek and English Lexicon, 1847 edition, s. v. “nepho ”; Thomas S. Green, A Greek-English Lexicon to the New Testament, 1892 edição, s. v. “nepho ”; E. Robinson, A Greek and English Lexicon of the New Testament (Nova York, 1850), s. v. “nepho ”; G. Abbott-Smith, A Manual Greek Lexicon of the New Testament, 1937 edição, s. v. “nepho ”; Hesychius of Alexandria, Hesychii Alexandri Lexicon, 1858 edição, s. v. “Nephalios”; Demetrios C. S. Byzantios, Lexicon Epitomou tes Ellenikes Glosses, 1939 edição, s. v. “Nephalios.”

13. Josefo, Antiquities of the Jews 3, 12, 2, tradução William Whiston, Josephus Complete Works (Grand Rapids, 1974), p. 81

14. Filo, De Specialibus Legibus 4, 183.

15. Adam Clarke, The New Testament of Our Lord and Saviour Jesus Christ. (Nova York, 1938), vol. 2, p. 869.

16. Henry G. Liddell e Robert Scott, A Greek-English Lexicon, 1968 edição, s. v. “paroinos

17. Frederick R. Lees and Dawson Burns, The Temperance Bible-Commentary (Londres, 1894), p. 367.

18. Albert Barnes, Notas, Explanatory and Practical on the Epistles of Paul to the Thessalonians, to Timothy, to Titus and to Philemon (Nova York, 1873), p. 140.

19. Lexicon Graeci Testamenti Alphabeticum, 1660 edição, s. v. “Paroinos .”

20. Henry G. Liddell e Robert Scott, A Greek-English Lexicon, 1968 edição, s.v. “Paroinios” O mesmo significado é dado no moderno Léxico Grego-Inglês de G. Giannakopoulou e E. Siapenou, Ariston Ellenoaggaikon Lexicon, 1971 edição, s. v. “Paroinos .”

21. Ênfase suprida.



Dr. Samuele Bacchiocchi (*)


Traduzido por Prof. Azenilto G. Brito (*)
Ministério Sola Scriptura
[Não confundir com solascriptura-tt]



(*) Nota de Hélio de M. Silva: Esta pessoa é ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA, seita combatida por nós neste site. O fato de citarmos as palavras de alguém não necessariamente significa que temos a mínima identificação com seu autor em áreas outras que o principal assunto da citação. Neste caso, discordamos radicalmente e estamos em campos de batalha opostos, quanto a áreas extremamente importantes. Somente estamos usando as palavras dessa pessoa por ela bem atacar um grave erro. Leia nossa posição em http://solascriptura-tt.org/ConfissaoDoutrinariaHelio.htm.
 



Todas as citações bíblicas são da ACF (Almeida Corrigida Fiel, da SBTB). As ACF e ARC (ARC idealmente até 1894, no máximo até a edição IBB-1948, não a SBB-1995) são as únicas Bíblias impressas que o crente deve usar, pois são boas herdeiras da Bíblia da Reforma (Almeida 1681/1753), fielmente traduzida somente da Palavra de Deus infalivelmente preservada (e finalmente impressa, na Reforma, como o Textus Receptus).



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